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Emprensa

portuguesa

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Tentionamos colocar aqui os primeiros artigos que pareceram emPortugal, "O Diario Popular" do dia 19 - 05 - 1987 etambem este artigo traduzido em portuguès que pareceu no"The Portugueses Tribune" do 17 - 06 - 1986... artigostraduzidos em francês e publicados no
"InteractionAquitaine Portugal" de Abril 1988.

 

19-05-1987

DIARIO POPULAR

O texto do artigo está precedido duma introducção-resumindo o artigo, e que explica as diligéncias da família perto dos diferentes governos português para obter a reabilitação do seu pai.)

... Até agora, o Governo ignorou tambem os pedídos feitos pela família do dr. Mendes para que seja erigido um monumento em sua memória, ou estabelecimento de uma bolsa de estudos com o seu nome, assim como a sua promoção a título postumo ao cargo de embaixador. Com a excepção de alguns jornalistas que têm publicado artigos seus ocasionais, o caso do dr. Aristides de Sousa Mendes é desconhecido na sua própria Pátria. Um lider da Comissão internacional das Homenagens ao dr. Aristides de Sousa Mendes fez acusações de que há elementos anti-semita e pro fascistas no Ministério dos dos Estrangeiros em Portugal que, até agora, não permitiram a rehabilitação do nome do dr. Mendes. Ele afirmou que desenterrar a verdade no caso do dr. Mendes levantaria graves questões sobre a história do fascismo português e sua influència actual.

E assim, o caso do dr. Aristides Sousa Mendes não envolve apenas um homem justo que foi desonrado há 47 anos -- mas uma batalha que ainda hoje se trava contra o fascismo e o anti-semitismo.

Aristides de Sousa Mendes do Amaral do Abranches nasceu em 19 de julho de 1885, de familia aristocrata . Formado em Direito, desempenhou cargos diplomáticos em Zanzibar, Brasil e Estados Unidosda América. O seu irmão gémeo, César foi o primeiro ministro dos Negócios Estrangeiras de Salazar, em 1932, mas pediu a demissão do cargo, que desempenhou num periodo inferior a um ano.

Os dois irmãos eram muitos unidos e posterioramente trocavam corespondência todos os dias. Tinham tambem em comum, a antipatia pela politica de Salazar. Um relatório governamental que andou escondido durante muito tempo, dava indicações de que a desonra posterior que recaiu sobre o dr.Aristides de Sousa Mendes foi, em parte, devida a inveja que alguns funcionarios do Ministerio dos Estrangeiros tinham da situação do seu irmão César.

Mendes é um nome marrano. Os marranos eram judeus convertidos à força ao catolicismo durante a inquisição Portuguesa de 1497. Mendes, literalemente quer dizer "Novo Cristão". João Abranches disse que, apôs 450 anos de pràtica católica, a sua possivel herança judaica era vista como uma curiosidade histórica. Mas, como os acontecimentos posteriores viriam a provar, o dr.Mendes continua a ser judeu na opinião dos fascistas portugueses.

Em 1938, a família Mendes chegou em Bordéus, onde Aristides assumiu as funções de cônsul. Mesmo antes da invasã o alemã, ele tudo fez para auxiliar os refugiadosa porrem-se a salvo.

Em 13 de Maio de 1940, os alemães invadiram a França. Com aquele país enfraquecido pelos simpatizantes internos do fascismo, e com as políticos de apaziguamento dos aliados, os nazis esmagararam tudo na sua viagem para Paris. Centenas de milhares de refugiados fugiram, então, para o cantinho meridional francês, que continuou fora do controlo dos alemães.

Embora se tinha mantido formalmente neutro, o ditador potruguês Salazar cooperava com o Eixo. Em 1940, ele passou instruções às suas embaixadas, para que não emitissem vistos aos exilados politicos portugueses, aos citadões soviéticos e a todos os judeus.

Quando o dr.Mendes recebeu essas instruçãoes sentiu-se destruido. Dezenas de milhares de refugiados encontravam-se acampados no exterior do consulado português em Bordéus. Que poderia ele dizer-lhes? Cesar Mendes o subrinho do cônsul encontrava-se presente nessa altura e recorda as palavras que o dr. Mendes dirigiu àquela multidão ali reunida.

"Não posso permitir que este gente morra" - disse ele, com a alma cheia de tristeza - "muito deles são judeus e secunda a nossa Constitução estabelecida, nem a religião nem a política de um estrangeiro poderão ser utilizadas para lhes negar o acolhiemento de Portugal. Decidi seguir esses principios ...Nem que isso signifique a minha demissão, só podera agir como cristão que sou, e conforme a minha consciênça me aconselha".

E a partir de 16 - 18 de junho de 1940, trabalhando até altas horas da noite, o dr.Mendes, juntamento com o seu filho mais velho e um sobrinho, emitiram pelos seus próprios pugno mais de 30 000 vistos. Tendo tido a oferta de grandes quantias em ouro, o dr.Mendes nunca aceitou um vintem sequer pelos emissão dos vistos. E, ao fim de três dias, o dr. Mendes caíu exausto.

Entretanto, o Governo de Salazar apercebendo-se do desafio do dr. Mendes fez deslocar a Bordéus dois funcionario para o trazerem de volta a Lisboa... (A partir desta parte do texto o "Diario Popular" utiliza a narativa do livro de Sebastião "Flight trough Hell", cf. Testemunhas - Sebastião pasagem por Baiona, Hendaia e por Biriatou)...

.... Quando finalemente, o dr. Mendes chegou a Lisboa, foi imediatement expulso do Corpo Diplomático. Advogado de profissão, nunca mais o deixaram trabalhar. A pouco e pouco, a sua família foi forçada a vender os seus bens e a luxuosa mansão de família entrou em ruinas. Um pouco antes de terminar a Secunda Guerra Mundial, o dr. Mendes foi vítima duma ataque do coração, que lhe provocou a paralisação do lado direito do corpo.

Reese Erligh-

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DIARIO POPULAR

  • É tempo de se prestar justiça
    ao heroi português Dr. Sousa Mendes
    . . . . . REESE ERLIGH

    A ditadura de salazar disfarçava muito bem a sua recusa de emitir vistos aos judeus e o tratamento dado ao dr.Mendes; Em 15 de dezembro de 1940, o agora famoso correspondante do "New York Times", James Reston, fazia nas colunas daquele jornal eco da versão oficial do Governo português. "inicialmente, o Governo português controlava o movimento dos refugiadosde França para Portugal", escreveu Reston, certificando-se de que todas as pessoas que pedirem os vistos ja tinham o seu transporte assegurado pelos ERstados Unidos da America ou para qualquer outro país. O problema principal para o Portugal, neste momento, é fazer seguir viagens oa oito mil refugiados que se encontram ainda no país, a maioria dos quais encontrou ainda no Portugal com vistos sem validade - claro que os vistos sem validade - eram aqueles que o Dr. Mendes tão esmeradamente passara com o seu próprio punho.

  • Alguns anos mais tarde, quando Salazar tentava disfarçava a sua política pró-Eixo e tambem granjear a amizade de Israel, as entidades do seu Governoreclamavam o crédito por terem salvo os refugiados judeus: O Embaixador português em Espanha, Teotonio Pereira , escreveu no Segundo volume das suas Memóris publicadas em 1973, o seguinte; "Durante dois ou três dias andei diligentemente de um lado para o outro, entre Hendaia e Baiona, a pressionar as autoridades espanholas para que respeitassemos vistos emitidos pelos portugueses, oferecendo o meu apoio, com todos os meios de que dispunha para o fazer." Na verdade, Teotonio Pereira foi um das testemunhas principais contra o dr. Mendes durante o inquérito disciplinar de que veio a resultar a demissão do dr. Mendes.

  • Emlbora os 12 filhos do dr. Mendes se encontrassem espalhados por Portugal, C anadâ e Estados Unidos da América, os seus familiares continuaram a envidar esforços no sentido de conseguirem o reconhecimento do heroísmo do seu pai. Em 1951, Sebastião Mendes publicou um livro tendo como tema as acções do seu pai, em França. A sua filha Joa,a Mendes incitou alguns refugiados judeus, que haviam sido auxiliados por seu pai, a escreverem para o Centro do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalem. Em 1967 os representantes daquele Centro fizeram a entrega de uma medalha em homenagem ao dr. Mendes tendo mais tarde, sido plantado uma árvore em seu nomeno Jardim dos virtuosos. Mas enquanto Salazar estave no poder, e depoiso seu sucessor fascista, Marcelo Caetano, o nome do dr.Mendes continuou na penumbra em Portugal.

  • Em 1974, a familia Mendes conseguiu que o novo Governo levasse a cabo uma investigação sobre o caso du seu pai. O Governo designou um antigo embaixador altament respeitado, o dr. Nuno A. A. Bessa Lopes, que apresentou um relatório datado do 6 de junho 1976 como resultado das suas investigações. Esse relatório era, na verdade, bem revelador.
    O relatório ilibava o dr.Mendes completamente de culpas. Punha também cobra ao mito de que Salazarse mantivera neutro durante os primeiros anos da guerra, salientandoque o ditador queria obedecer à "besta nazi", e que foi por isso que ele negou a entrada dos judeus em Portugal.
    Mas o mais interessante de tudo isto foi o dr. Bessa Lopes ter feito menção a documentos encontrados nos arquivos do Ministério dos Estrangeiros em que se fazia alusão a família do dr. Mendes como sendo "descendente de judeus". Houve quem, no Ministério dos Estrangeiros, tinha pensado que o dr. Mendes salvara os refugiados judeus devido a sua própria condição judaica. "Aparentamento", escreveu o dr. Bessa Lopes, "o pobre cônsul Sousa Mendes sucumbiria às garras da nova inquisição que teimosamento continua a haver em Portugal -- o espírito inquisitorial deixou profundas raizes na alma de Portugal".
    O relatório de Bessa Lopes sumiu-se de imediato e so em 1986 foi dado a conhecer publicamente.

 

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"ThePortugueses Tribune" do 17 - 06 - 1986... foi traduzido emportuguês pelo Diario Popular, e em francés pelo"Interaction Aquitaine Portugal" de Maio 1988.

. . . . . . . . Assim como lembramos as densas trevas que se abateram sobre a Europa durante o Holocausto, assim també recordamos as velas que foram sendo acesas e as pessoas que as ascenderam...

No dia 14 de junho de 1940, o 18° exercito alemão levantou sobre os telhados de Paris as insignias da cruz gamada . Fugindo em direcção a Bordéus havia um outro exército de refugiados constituido por membros das familias reais europêias, por aniti-nazis e escritores, juntamente com Judeus e outras "não arianos" que de outro modo seriam mandados para os fornos crematórios e as câmaras de gás.
30.000 destes refugiados juntaram-se na cidade de Bordéus, un terço dos quais eram Judeus. S
ó havia uma possibilidade de fuga: atravessar os Pirenèus em direcção a Espanha e a Portugal. Entretanto, circulara entre os fugitivos que Portugal não daria asilio aos Judeus. Grandes multidões de pessoas desalinhadas e em em estado de desespero aguardavam em silêncio nas ruas em frente do edificio do Consulado de Portugal, a ver se conseguiam um visto com que pudessem escapar aos nazistas que se aproximavam

No interior do consulado estava um homem notável cuja decisão forçaria depois o Governo do seu país a mudar de atitude, mas que entretanto lhe havia de arruínar a carreira. Era o Cônsul-geral de Portugal em França, dr.Aristides de Sousa Mendes. O dr.Sousa Mendes tinha feita carreira brilhante no Corpo Diplomático do seu país. Antes da queda da França, tinha auxiliado numerosos fugitivos com vistos e com dinheiro. Inclusivamento tinha emitido passaportes legalmente invalidos mas perfeitamente válidos aos seus olhos. Agora o dr. Sousa Mendes tinha diante de si não apenas algumas pessoas a quem ajudara alcançar a liberdade, mas multidões delas. Podia vê-las da janela do seu gabinete. Aguardavam uma palavra e o auxilio que só ele lhes podia prestar.
"Onde está o Cônsul ? Onde está o Cônsul de Portugal?" - gritou uma voz da rua. O dr.Sousa Mendes encontrava-se no seu gabinete a ler as últimas instruções vindas do seu Governo em Lisboa. Nelas podia ler-se o seguinte: "Não se devem conceder vistos a refugiados a não ser àqueles que bona fide possam residir em Portugal...Em caso alguns não devem passar vistos a Judeus.
Em frente do consulado havia cerca de 30 000 pessoas, 10 000 eram Judeu sem pátria nem lugar para onde ir. O dr.Mendes dirigiu-se para a entrada do Consulado. Tomou a esposa pelo braço e desceu as escadas.

  Os que o conheciam ficaram chocados com o que viram: os cabelos tinham-se-lhe tornados brancos e duas profundas sulcos negras cavavam-lhe os olhos. Parou de pé, e só por este gesto e atitude a gente ficou sabendo que o tempo da espera estava finalemento acabado.

Voltou-se então para a multidão dos refugiados que tinha diante de si e disse no meio da maior tristeza: "O meu Governo proibiu passar vistos a quaisquer refugiados. Mas eu não posso em consciência deixar que toda esta gente morra.

Muitos são Judeus mas a Constitução portuguesa proibe que, só por causa da religião e de opções políticas, se recuse visto a estrangeiros que desejam refugiar-se em Portugal. Decidi seguir este princípio. Vou por isso passar visto a toda gente que os requeira, sem saber se podem pagar ou não". Voltou-se para a sua esposa e acrescentou: "Sei que minha mulher concorda comigo. E mesmo que eu venha depois a perder o emprego e a ser exonerado da carreira diplomática, agora só posso e devo agir como cristão e seguir os ditames da minha consciência". Chamou um agente de Policia que metia guarda à porta do Consulado e disse-lhe: "Já não é preciso que impeça esta gente de vir ter comigo. Agora só è necessario aqui para manter a ordem".

  O dr.Mendes trabalhou no Consulado durante três dias seguidos, inclinado sobre uma pequena mesa de café. Só parava para comer e dormir. Não levou dinheiro a ninguém pelos vistos que passou. Quando ao terceiro dia a porta do Consulado se fechou sobre o último requerente, o dr.Sousa Mendes levantou-se para se dirigir para a sua secretária. Caiu ao no chão exausto.

Quando o Governo português soube o que o dr.Sousa Mendes tinha feito, mandou a França dois funcionarios para trazerem consigo o cônsul-geral. Este concordou em acompanhá-los, julgando que poderia convencer o Dr. Oliveira Salaza, então chefe do Governo, a mudar de atitude e de política (°). Ao chegar à fronteira da França com a Espanha, o dr. Sousa Mendes encontro-a fechada para os refugiados que ali aguardavam por poder passar. O Governo português avisara os Espanhóis de que os vistos emitidos pelo dr.Sousa Mendes não tinham validade e de que não deviam deixar ninguém atravessar a fronteira com eles. Foi então que o dr.Sousa Mendes se voltou para os refugiados e lhes disse que o seguissem. Dirigiu-se à proxima cidade da fronteira. Aí ninguem tinha ainda recebido qualquer aviso. O dr.Sousa Mendes mostrou as suas credenciais de cônsul-geral de Portugal em França e toda gente pôde atravessar em paz com ele a fronteira e encontrar refúgio em Portugal.

O dr.Mendes foi processado e expulso do Corpo Diplomático por desobediência formal. Bem lutou a ver se voltava a ser reintegrado, mas em vão. Os seus requerimentos e apelos dirigidos ao Governo nunca foram lidos nem ouvidos. Acabou os seus dias na pobreza, proibido de exercer a advocacia. Morreu com 69 anos em 1954.
Esquecido e pobre, mesmo assim nunca se arrependeu do que tinha feito. Permaneceu convencido até ao fim de que o seu sacrifcício fôra a única maneira de se apresentar de consciência limpa diante de Deus. Tinha salvado a vida a milhares de pessoas.

Em 21 de fevereiro de 1961 o Governo de Israel plantou 20 árvoresna Floresta dos mártires em honra do dr. Sousa Mendes. É justo que ali haja em Israel um monumento vivo dedicado a ele. Os Judeus que ainda hoje vivem por causa do seu heróico sacrifício constituem um testemunho vivo das suas nobres acções, e aqueles de nós que ouvimos falar da sua coragem e nos esforçamos por seguir o seu exemplo, podemos e devemos prestar homenagem a pessoa tão notavel.

Se vivermos uma vida inspirada nos princípios do dr. Sousa Mendes, o que ele então fez continuará válido e a perpetuar-se de geração em geração. Como pode se ler no medalhão com que foi galardoado a título postuma em 1967 : - " Quem salva uma vida humana é como se tivesse salvo o mundo inteiro".

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A LISTA DE MENDES
           

O reconhecimento tardio do cônsul português que salvou 30.000 vidas das garras do nazismo.

       A cidade francesa de Bordeaux tinha-se transformado em um beco sem saída para a multidão que se refugiava do avanço do Exército alemão em junho de 1940. A única saída era pela fronteira com a Espanha, mas os vistos eram sistematicamente negados. Foi nesse ambiente de caos e desespero que o cônsul português Aristides de Sousa Mendes se pôs a emitir visto de entrada em Portugal a qualquer um que pedisse. Durante dias de esforço frenético, ele despachou numa mesa instalada em plena rua e transportou pessoalmente refugiados até a fronteira. Salvou 30.000 pessoas, incluindo 10.000 judeus.

O desafio arruinou-lhe a carreira, mas o colocou numa restrita galeria de heróis da II Guerra, ao lado do alemão Oskar Schindler e do diplomata russo Raoul Wallenberg, que salvou 20.000 judeus húngaros do extermínio.

Entre os três, Sousa Mendes é o menos conhecido, apesar de ter salvado maior número de vidas. No mês passado, o livro Le Juste de Bordeaux (0 Justo de Bordeaux), escrito pelo jornalista José Alain Fralon, do jornal Le Monde, fez justiça tardia à incrível história do diplomata que morreu há 45 anos, na miséria, num convento franciscano em Lisboa. "Ele foi responsável pela maior opção de resgate empreendida por uma única pessoa durante a barbárie nazista", diz o historiador israelense Yehuda Bauer. Como Schindler, que tinha até carteirinha do Partido Nazista, Sousa Mendes havia sido até os 55 anos, quando eclodiu a II Guerra Mundial, um funcionário fiel à ditadura de António de Oliveira Salazar. Embora oficialmente neutro em relação ao conflito, o salazarismo tinha algum parentesco ideológico com o regime de Adolf Hitler e proibiu a concessão de vistos para judeus e outras pessoas de "nacionalidade incerta".

Aristocrata com quatorze filhos, Sousa Mendes passou por uma transformação ao receber de Lisboa a negativa de visto para um rabino que abrigara no próprio consulado. Durante três dias, Sousa Mendes se manteve recolhido em seu quarto, sem falar com ninguém". O retiro se encerrou com a seguinte conclusão: De agora em diante, darei visto a todos. Não há mais nacionalidades, nem raças, nem religiões". Em poucos dias, febrilmente, o diplomata assinou milhares de passaportes.

Estranhamente, foi a diplomacia inglesa que se queixou do cônsul que desafiava o protocolo diplomático trabalhando fora de hora e em locais impróprios. A ditadura salazarista chamou-o de volta. Mesmo a caminho de casa, Sousa Mendes continuou a distribuir vistos, às vezes quando os nazistas já estavam nos calcanhares de suas vítimas.

Em Portugal, o diplomata foi forçado ao exílio interno até morrer. Finda a ditadura, em 1974, a campanha por sua reabilitação só se concluiu em 1988, quando o Parlamento o livrou dos opróbrios lançados em seu currículo pelos inquisidores de Salazar. Hoje, um bosque com 30.000 árvores o homenageia em Jerusalém, simbolizando cada uma das vidas que salvou.

Em parte, o esquecimento em torno do heroísmo de Sousa Mendes se deve a ele mesmo. Católico fervoroso, julgava ter apenas agido segundo sua consciência e, com esse argumento, recusou a notoriedade.

Fonte: Veja, 11/11/98
Enviado por Leon M. Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da B'nai B´rith do RJ

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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