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. . .Por que razão

- - - - sacrificou tudo?

TUDO =

_ _. _- uma careira de diplomata,
. . .__- uma vida familiar feliz e alegre,
. .___- o futuro dos seus 12 filhos,
. .. . .___de idade escolar, obrigados
_. .... . ._...a deixar Portugal
__ . . .__para constuir as suas próprias vidas.
_. .. . .. .

..."paraos salvar a todos !.."

"Nãosei o que é que o futuro reserva para a vossa mãe, para vocêse para mim mesmo. Materialmente, a vida não será tão boa paranós como tem sido até agora. Contudo, sejamoscorajosos e tenhamos em mente que, ao dar a esses refugiados apossibilidade de viverem, teremos uma possibilidade mais deentrar no Reino dos Céus, por que, ao fazê-lo, não faremosmais do que praticar os mandamentos de Deus".

... São as palavras queele endereça a sua esposa e aos seus filhos, presentes nestamanhã, e Pedro Nuno acrescenta: "Depois, o nosso pai disseque tinha ouvido uma voz, a voz da sua consciência, ou deDeus... que me disse: "Levante-te e vai dar vistos a todos,sem nenhuma excepção. E foi isso que decidi fazer".

"Abriu a porta dachancelaria, viu o abismo da multidão que continuava à esperadum milagre, e com voz alta, pronunciou esta frase:

"Quero dizer-vosque a partir de agora vocês vão receber vistos. Vocês etodos".

Foi na manhã do dia 17 de junho 1940.
Não foi uma decisão tomada descuidadamente.

Aristides tinha passado todo o mês de maio e os primeiros dias de junho a receber centenas de refugiados, expulsos das suas casas pelos bombardeamentos e bilindados das tropas alemães ... Já tinha dados alguns vistos a pessoas cuja situação parecia mais dramática, porque eram judeus, ou porque opostos a Hitler. Mas Aristides tinha rejeitado centenas de outros, mas não era homem de recusar um serviço : sentia cada recusa como uma ferida aberta...

As autorizações pedidas, por telegramas, a Lisboa eram todas recusadas. Aristides estava à beira do esgotamento.

  .. . . . . . Le Consulat Quai Louis XVIII, 1r andar

Entãochegou um Rabino com a sua mulher e os seus seis filhos,perguntando-lhe quando poderiam contar com os vistos paraPortugal. Acabrunhado, respondeu-lhe que tinha a necessidade deter autorização do seu Governo. "

"Mas não somos sónós, que precisamos duma ajuda, mas todos os meus irmãos queriscam de morrer"- respondeu-lhe o Rabino.., no momento emque Aristides lhe assegurou que tencionava dar vistos a ele e atoda a sua família.

"O meu pai pareceulogo extremamente cansado ...Olhou para todos nós, e retirou-seno seu quarto... ficou assim très dias e duas noites",lembra-se, Pedro Nuno, seu filho.

...não era uma doençacomo os outras...reflectir, rezar, pensar...

Três dias, duasnoites.. ?

"Nesse momentoabriu-se a porta que dava para o gabinete do cônsul e ali estavao Cônsul, Dr.Sousa Mendes. Tinha um ar grave, com olheiras emvolta dos olhos. O cabelo tornara-se completamento grisalho,quase branco como a neve . Com ele etava a esposa. Ficaram ali depé por momentos, Estávamos todos semfala..."

Passados alguns segundos,o Dr. Mendes falou: "Como informei toda a gente, o meugoverno recusou terminantemente todos os pedidos para concessãode vistos a todos e quaisquer refugiados. Tudo estáagora em minhas mãos, para salvar os muitos milhares de pessoasque vieram de todos os lados da Europa na esperança de encontrarrefúgio em Portugal.

"Todos eles sãoseres humanos, e o seu estatuto na vida, religião ou cor, sãototalemente irrelevantes para mim. Além disso as cláusulas da Constitução do meupaís relativos a casos como o presente dizem queem nenhuma circunstância a religião ou as convicções poticasde um estangeiro... o empedirão de procurar refúgiono territorio português. Eu sou cristão e, como tal, acreditoque não devo deixar esses refugiados sucumbir.

"Uma grande partedeles são judeus, muito dos quais, são homens e mulheres comsituações proeminentes que, devido à sua posição social,como dirigentes e outros, sentiram nos seus corações deverfalar e agir contra as forças da opressão. Fizeram aquilo queem seus corações era o que devia ser feito. Agora querem irpara onde possam continuar a sua luta por aquilo que consideramjusto. Sei que a minha mulher concorda com a minha opinião, eestou certo de que os meus filhos compreenderão e não meacusarão, se por dar vistos a todos e a cada um dos refugiados,eu for amanhã destituído do meu cargo por teragido ...[contra] ordens que, em meu entender são vis einjustas. E assim declaro que darei sem encargos, um visto a quemquer que o peça. 0 meu desejo é mais estar com Deus contra oHomem do que com o Homem e contra Deus."

Voltando-se para oagente da políciaque estava à porta, disse: "Peço que a sua guarda cesseimediatamente. Deve permanecer apenas para manter a ordem. Nãopara evitar que alguém venha ter comigo. Isso acabou. Vão eespalhem a notícia."


. A casa de familia de Cabanas de Viriato, hoje em ruínas !

Aos filhos presentesdeu as suas verdadeiras motivações: "Não sei o que é que ofuturo reserva para a vossa mãe, para vocês e para mim mesmo.Materialmente, a vida não será tão boa para nóscomo tem sido até agora. Contudo, sejamos corajosos e tenhamosem mente que, ao dar a esses refugiados a possibilidade deviverem, teremos mais uma possibilidade de entrar no Reino dosCéus, porque, ao fazê-lo, não faremos mais do que praticar osmandamentos de Deus"(Flihghtthrough Hell p.55-57)

A carta que Aristidesescreve ao seu advogado, o Dr. Palma Carlos, no dia 17 de julho 1941 para lhe agradecer,depois do seu último recurso perante o tribunal, de o terdefendido, confirma esta convicção:

"Realmente desobedeci, masa minha desobediência não me desonra. Não cumpri instruçõesque significavam , a meu ver, perseguição a verdadeirosnáufragos que procuravam a todo o custo salvar-se da sanhahitleriana. Acima dessas instruções, estava para mim a lei deDeus e foi essa que eu procurei cumprir, sem hesitações, nemcobardias de poltrão. O verdadeiro valor da religião cristã,está no amor do próximo, e eu, sendo cristão, não podia fugirdo seu império".

E mais adiante, termina dizendo:

"Deus aceitará omeu sacrifício em desconto dos meus pecados e imperfeições,que são muitos".

...Etodos concordampara dizer que, foi numa alegria exuberante que Aristidesdistribuiu vistos e passaportes. A sua maneirade fazer é tão extravagante, que Teotonio Pereira, enviado porLisboa, disse-lhe"Mas vocé tinha perdido o juizo!.."pelo contrário, respondeAristides, estou a falar a linguagem da verdade e do bonsenso".

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Mas, mesmo muito tempo depoisdos acontecimentos, Aristides não perderá esta alegria queacompanha a certeza de ter feito o que devia fazer, mesmo nosmomentos mais difíceis que atravessou." Sofrimentos,amarguras, e as provas foram numerosas, mas tinha ganho oessencial :

Milhares de homens, mulheres, crianças foram salvos das torturas, dos suplícios e da morte...As portas do Reino dos Ceús estavam abertas para eles, Angelina, seus filhos e todos aqueles que partilharam as consequências da sua decisão ...A partir daí, o que importava o resto !..

Na Postface da tradução portuguêsa do livro de José Alain Fralon, José, o filho de César, nessa altura joven estudante de liceu, foi visitar seu tio, nos últimos anos de vida deste e escreveu:

"Admiro-o muita pela decisão que tomou...

  . . . . . . . . . . . . . . Aristides 1950

... Mas admiro-o aindamais pela coragem e fortaleza com que enfrentou durante catorzeanos as injustiças e dolorosíssimas consequências que sobreele desabaram . Sem guardar rancor. Sem perder o sorriso".

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- Celso Lafer Professorde Direito da Universidade de São Paulo"

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O busto Allées C.De Gaule Bordéus.
 

PORQUÊ ?

por Celso Lafer

... O que levou Aristides de Sousa Mendes, um respeitável mas não destacado membro do corpo consular português a, numa actividade febril, querer salvar todos, independentemente de nacionalidade, raça e religião, concedendo vistos para a vida não autorizados pela sua Chancelaria?

O que explica o imprevisível, o acaso de sua actuação, que foi uma corajosa expressão do melhor do coração humano?

A palavra coragem provém do francês que por sua vez a hauriu do latim cor – coração – com o sufixo age, um aumentativo de reforço. Significa moral forte perante o perigo, firmeza de espírito. É a esta firmeza de espírito que alude Cícero quando diz que a coragem é uma virtude que consiste em enfrentar os perigos e suportar os trabalhos

Acoragem é uma virtude rara pois é difícil ter a firmeza deespírito nas situações-limite do perigo. A coragem é umavirtude que transcende as necessidades da vida e as exigênciasdas profissões e, como foi o caso de Sousa Mendes,frequentemente exige a via solitária do rebelde consciencioso.

Creioque Aristides de Sousa Mendes encontrou forças para ter acoragem do rebelde consciencioso porque na introspecção dosdias 14, 15 e 16 de Junho de 1940 parou para pensar o que estavaacontecendo à sua volta. Sentiu que não poderia conviver com asua Consciência e o seu Ser, se não enfrentasse o avassaladormal activo e passivo com a afirmação do bem, em consonânciacom a sua profunda fé cristã e o preceito do amor ao próximocomo a expressão mais alta do amor.

Daía dimensão exemplar de sua actuação que merece estar nos“lieux de mémoire” dos homens de bem. A ele rendo omeu tributo, como estudioso e defensor dos direitos humanos; comodiscípulo de Hannah Arendt e de Norberto Bobbio; comoex-chanceler do Brasil, sensível à relevância da herançaportuguesa que nele sente, para recorrer a Miguel Torga, apresença do vento lusitano como uma expressão do «...soprohumano/Universal/Que enfuna a inquietação de Portugal» e comoquem tendo consciência de suas raízes reconhece a luz daacção de Aristides de Sousa Mendes em meio à imensa treva doHolocausto.

CelsoLafer Professor daFaculdade de Direito da Universidade de São Paulo"

Passagemtirado de: www.ieei.pt/index.php?article=1596&visual=4 O MundoPotuguês" N°55

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