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Pedro Nuno Sousa Mendes

  Que o meu pai sirva de exemplo

declarou Pedro Nuno, o seu filhos

Interview de Marta Vitorino

" Magazine Domingo" do dia 23 de janeiro 2005

Cônsul em Bordéus durante a II Guerra Mundial,
Aristides de Sousa Mendes salvou milhares de judeus.

Nos 60 anos dalibertação de Auschwitz,
ouvimos o filho do Schindler português

PedroNuno é o filho de Aristides de Sousa Mendes, o cônsulportuguês que na II Guerra Mundial estava em Bordéus edesobedeceu às ordens de Salazar, seladas na Circular 14 –o despacho que proibia os diplomatas de conceder vistos a judeuse a quem estivesse no escopo nazi. A atitude dele levou a quepelo menos dez mil judeus não entrassem no matadoiro nacionalsocialista. O Estado Novo não lhe perdoou; expulsou-o do corpodiplomático, deixou-o sem vencimento e fê-lo cair na miséria.

Os oitenta e muitos anos não atropelam a memória de Pedro.Descreve o que viu em Bordéus: uma enchente de refugiados quetrazia a aflição no semblante. Relata a angústia sentida peloseu pai, em vésperas de arriscar a carreira e o sustento dosseus catorze filhos. Recorda os três dias de Junho, em que asportas do consulado ficaram escancaradas para que o pai passassecompulsivamente vistos. Quando a PIDE chegou à cidade francesa,Aristides já tinha saltado a fronteira para seguir a promessa;salvar mais pessoas. É nesta altura que Pedro regressa aPortugal. Mas por pouco tempo: o nome da sua família tinhaentrado no índex nacional, e os filhos de Sousa Mendes seriamobrigados a emigrar para sobreviver.

Foi oque fizeram. Uns partem para os Estados Unidos da América eCanadá, Pedro opta por África, onde ficou cerca de vinte anos.

Logoque a II Guerra Mundial estalou, os seus irmãos vieram paraPortugal. Qual foi a razão de ter sido o único filho deAristides de Sousa Mendes a permanecer em Bordéus?

Eutinha vinte anos, frequentava o 3º ano de Direito e adorava osmeus estudos. A minha vida académica estava no auge e não podialargar a tão desejada carreira de advogado. No princípio daGuerra, ainda ficou a morar connosco um irmão, mas ele nãosuportou aquele ambiente horripilante. Uma atmosfera que iaficando cada vez mais pesada e insuportável.

Comodescreve o ambiente?

Erauma fatalidade, uma tragédia. Grávidas, velhos, crianças,homens, mulheres, que estavam em doloroso estado de desespero.Numa aflição agonizante. Num sofrimento brutal. Bordéus estavainundado de refugiados. Estas pessoas só queriam viver. Viver.Tenho a certeza que não haverá diferença entre o que vi e oinferno.

Masnão quis trocar o horror pela paz portuguesa.

Comoseria eu capaz de me ir embora? Não queria deixar o meu pai e aminha mãe.

Elereagiu imediatamente a este cenário?

O meupai, que já estava cansado de tantas contrariedades, acabou porficar doente.

As“contrariedades” eram o facto de Salazar não tergostado de alguns vistos concedidos pelo seu pai antes de 1940?

Eleentendeu de pronto que estava diante de uma questão meramentehumanitária e, como a vida de seres humanos dependiaexclusivamente do seu carimbo, da sua assinatura, decidiu quetinha que conceder vistos sem a autorização do governoportuguês. Já nessa ocasião percebeu o que viria atrás. Elesabia perfeitamente qual seria a atitude de Salazar e, como tal,ainda ficava mais triste e mais doente. Mas nunca teve medo.

Efoi repreendido por Teotónio Pereira, o então embaixador dePortugal em Madrid.

Poisfoi, mas de nada serviu esse puxão de orelhas. O meu pai, mesmoconsciente do enorme risco que corria, decidiu salvar todas ascriaturas que podia.

Adescomunal concessão de vistos surgiu em meados de Junho?

Sim,foi nesse mês que a situação ficou totalmente inumana. E se emBordéus já havia um mar de gente aflita, em Junho houve umaavalanche de tormento. Milhares de refugiados com a angústiagravada nos rostos. Procuravam uma coisa que agora pode parecersimples, mas naquele tempo era deveras impossível: viver.

Osrefugiados concentravam-se em que lugares?

Emtodos os lados. Não havia uma esquina, um canto onde eles nãoestivessem. As suas caras eram assustadoras. Precisavam de vivere não sabiam se seria exequível. A fila que ia dar ao consuladoera infinita. Sem fim. Gente, gente e mais gente. Éincalculável, inenarrável, impossível de descrever. Ficavamdias no mesmo sítio. Dias. Não largavam os lugares para nãoperderem a vez. Quando eu saia para ir às aulas, parecia que umcontinente queria entrar no consulado.

Falavacom essas pessoas?

Dizia-lhescoisas para os animar, para que sorrissem, para ver algumaesperança naquelas faces tão amarguradas. Às vezes dizia, paraos tranquilizar: “Eu sou o filho do cônsul, o meu pai iráajudar-vos”.

Estavaconvicto que o seu pai não ia ficar apático?

Semdúvida. Era um homem muito bom, muito generoso. Como é que eleficaria indiferente diante daquela terrível situação?

Quandoé que surge a decisão de conceder vistos?

Durantetrês dias o meu pai ficou doente, não comia, não dormia,estava em retiro no seu quarto. Até que numa manhã saiu dacama, arranjou-se, vestiu-se e, quando ia a sair, a minha mãeperguntou-lhe: “Não me dizes para onde vais?”. Euestava em casa e ouvi a resposta: “Olha Gigi eu ouvi uma vozque me disse: levanta-te e vai dar vistos a todos. A todos. Semnenhuma excepção. E é isso que eu decidi”.

Abriua porta da chancelaria, viu o abismo de multidão que continuavaà espera de um milagre, e em voz alta pronunciou esta frase:“Eu quero dizer-vos que a partir de agora vocês vãoreceber vistos. Vocês e todos”.

Estevetrês dias a reflectir e outros três dias a dar vistosincessantemente

Naquelestrês dias de Junho não sossegou um minuto. Ele tinha quecumprir a promessa feita: conferir licença a todos. Se dormisseou se comesse, perderia tempo, e era menos uma pessoa que seriasalva. Recordo-me muito bem: 17, 18 e 19 de Junho de 1940. Nãohouve descanso.

Éverdade que alguns refugiados dormiram no consulado?

Comcerteza. Ficavam onde cabiam; nas camas, em cima dos tapetes,sentados nas cadeiras, sofás, eu sei lá! Foi ali que conheci orabino Kruger, a mulher e os filhos. Eles sentiram bem na pele ogesto do meu pai.

Voltoua ver algum deles?

Não.Escrevemo-nos. Telefonámo-nos.

Fezamigos durante a Guerra?

Estávamosnuma altura em que as pessoas tinham muita pressa e muitaaflição. Não havia tempo para nada que não fosse sobreviver.Mas lembro-me de um rapaz mais novo do que eu. O jovem dormiu numquarto ao lado do meu. Ficámos a falar quase a noite toda.Contava-me os seus sonhos, a tremenda vontade que tinha de viverem absoluta liberdade, sem ter que sentir medos e perseguições.Eu desabafava as minhas coisas. Antes das sete da manhã,despedimo-nos. Ainda lhe disse que um dia haveríamos de fazermuita coisa juntos. Ele sorriu, bateu com a porta e nunca mais ovi. Se é meu amigo? Nunca segredei tanta coisa em tão poucotempo a alguém

Quandoa PIDE chegou a Bordéus, os seus pais já estavam a caminho deBayonne?

É bomque se saiba: ele não fugiu à PIDE, o que pretendia eraconseguir abonar mais vistos. Em Bordéus já não era viável,por isso, foi em direcção à fronteira para salvar maispessoas. Deu vistos em todos os lados onde via refugiados. Nocaminho, nas ruas, nos cafés, etc.

Ficouainda em Bordéus?

Não.Vim de carro com um casal belga. O meu pai aconselhou-me aregressar. Era perigoso ficar. Quando é que tornou a ver oseu pai?

Curiosamente,a meio do caminho, quase a chegar à fronteira, estávamos a pôrgasolina no carro, e quem é que eu avisto do outro lado da rua?O meu pai. Foi emocionante. Não falámos, mas dissemos muitacoisa naquele silêncio.

Masquando é que a família se reencontra na Casa do Passal, emCabanas de Viriato?

Eucheguei após oito dias de ter partido, e os meus paisregressaram logo a seguir, talvez depois de duas semanas.

Comoé que ele estava?

Sentia-sealiviado. Disse-me, a mim e aos meus irmãos, que tinha feito oque a sua consciência mandava.

Eleprevia castigos governamentais?

O meupai pediu-nos para termos muita coragem, para sermos fortes,porque o futuro que se aproximava iria ser negro, muito negro.Advertiu-nos que íamos sofrer muito. Garantiu-nos que iríamosentender o seu comportamento, naquela altura ou mais tarde.

Achaque ele, alguma vez, se arrependeu?

Nunca.Apesar da solidão e do desespero de ter ficado sem emprego,nunca lhe ouvi nem senti um mínimo remorso.

Nemmesmo com um processo disciplinar, Notas de Culpa, e de terficado sem vencimento?

Nuncateve um milésimo de segundo de arrependimento. Se ele pudesseter salvo mais gente tê-lo-ia feito.

Oseu pai teve ajuda dos amigos?

Amigos?Quais amigos? Antes de Junho de 1940 ele tinha muitos, masdepois, ficou muito sozinho. As pessoas tinham pavor de seremvistas ao pé dele. A minha mãe não aguentou aquela injustiçae morreu pouco tempo depois.

Eele voltou a casar com uma francesa.

Sim,mas essa companhia não lhe tirava a dor que lhe vinha da alma.Sozinho. Sem dinheiro. Na miséria. Os filhos longe, porqueprecisavam de sobreviver. E a nossa Casa do Passal estava vazia edeteriorada.

Eporque motivo os filhos tinham que estar longe?

Parase ter uma ideia da nossa situação, todos nós tivemos queemigrar. Em Portugal, ninguém nos dava emprego. As pessoastinham medo de estar ligados à família Sousa Mendes. Salazarnão ia gostar. Elas seriam postas de lado e punidas.

Osmeus irmãos foram para os E.U.A e Canadá Eu bem queria ter idopara a América, mas tinha que esperar sete anos por um visto.Sete anos. E como eu não podia esperar esta enxurrada de anos,fui para África, e já casado.

Asua irmã Joana escreveu uma carta a Américo Tomás onde pediaajuda, mas nunca obteve resposta.

Aminha irmã era muito corajosa. Tinha muita força. Mandou umacarta ao Almirante Tomás, no entanto, ele nunca respondeu. Mas acarta que ela escreveu ao Ben Gurion, teve resposta e resultados.

Nosanos 60 foram plantadas no bosque do Museu do Holocausto vinteárvores em nome do nosso pai e, passado pouco tempo, recebeu umamedalha dos Justos entre as Nações.

Quandoo seu pai morreu em 1954, ainda estava em Portugal?

Não,já me tinha ido embora. É curiosa, a coincidência; em Marçodesse ano eu tinha recebido uma carta do meu pai. Dizia-me quemuito em breve me faria uma visita. Mas não chegou a fazer essamaravilhosa surpresa. Morreu precisamente passado um mês. Morreua 3 de Abril, num quarto do Hospital da Ordem Terceira. E dizemque nem roupa tinha para ser enterrado. Foi sepultado com vestesde franciscano, a roupa que o hospital lhe deu.

Hojeem dia Portugal redimiu-se?

O meupai tem ruas com o seu nome, uma escola, são publicados livrossobre a sua vida; Portugal já reconheceu o gesto do meu pai: oEstado português ajudou a comprar a Casa do Passal.

Umacasa que está em ruínas

Está,mas há-de deixar de estar.

Como?

Com avontade de todos.

Consideraurgente a sua reconstrução?

Élógico que sim. Portugal e a Fundação Aristides de SousaMendes devem participar e incentivar essa reedificação

 

A casa, quando estiver restaurada, voltará para a família?

Não, absolutamente. Fica para Portugal, para o Mundo, para que nunca se esqueçam do português que ajudou a salvar a humanidade. Que a conduta do meu pai sirva de exemplo.

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Ce fut la dernière entrevue de Pedro Nuno, en effet six mois plus tard, le 28 Juin, il mourut à l'Hôpital Amadora-Sintra. L"Expresso" du 9 juillet en fit part à ses lecteurs. Pratiquement inconnu de la plupart des portugais, Pedro Nuno fut l'un des quatorze fils du Consul portugais de Bordeaux. Le destin voulut qu'il fut auprès de son père, durant les journées critiques de Juin 1940, quand des milliers de réfugiés cherchaient désespérément un visa pour la liberté...