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Trechos escolhidos #####################

 

1 -Queriamos oferecer-vos aqui, alguns escritos de Aristides deSousa Mendes. Perante um julgamento ficticio, no qual a sentençaparecia pré- determinada. Sousa Mendes no exercício do seudireito de reclamar :

a) Otexto da sua resposta a Salazar (12-08-1940)

b) 1945 - Sousa Mendes no exercício do seu direito, redige umacarta dirigida à Assembleia Nacional, foi a ultima.

2 -Pela ocasião das varias celebrações do cinquentenário algumasconferências mereçam a nossa atenção.


1 - - Em 24 de Junho de 1940, o Dr. António deOliveira Salazar, ditador e ministro dos Negócios Estrangeirosportuguês, enviou 2 telegramas chamando imediatamente a Lisboa ocônsul-geral português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes.O despacho acusava-o da "concessão abusiva de vistos empassaportes de estrangeiros". Ele significou o fim dacarreira de 30 anos de Sousa Mendes. A verdade sobre o que tinhaacontecido foi imediatamente silenciada pelo regime de Salazar.Nem mesmo durante o processo disciplinar, realizado à portafechada, se apurariam todos os factos.

O elemento mais importante da defesa de Sousa Mendes apresentada no dia 12 de Agosto foi, a sua eloquente resposa escrita às acusações. A resposta dirigida a Salazar, foi ditado tanto pelo realismo como pelo protocole. Realime por que Salazar carecia dessa experiência visceral, Sousa Mendes tentou recriar, omelhor que podia os dramaticos acontecimentos :

---------" Tendo-sedeclarado em todo o Sudoeste da França um verdadeiro pânico quese traduzia em cenas patéticas com as notícias da derrota dastropas francesas e do avanço rápido das tropas alemãs, tendomesmo em dado momento sido interrompidas as comunicacões telegráficas e telefónicas entreBordéus e outras cidades franceses, pensei ser meu dever estritonaquele conjuntura, excepcionalemente grave, ir em pessoaresponder ao apelo do meu colega.

"Chegando ali, vi ...tantos milhares de pessoas...cerca de 5000 narua, de dia e de noite, sem arredar pé, à espera de vez...cercade 20 000 em toda a cidade, aguardando a ocasião de seaproximarem do Consulado...( Sousa Mendes fizera a suaproposta a Faria Machado e a Calheiros e Meneses e ambos a tinhamaceitado. )

---------" Quandoregressei a Bordéus" estava já a cidade ocupada por tropasalemãs e restabelecidas as comunicações pela estrada...

"Erarealmente meu objectivo "salvar toda aquele gente",cuja a aflição era indescrítivel: uns tinham perdido os seuscônjuges, outros não tinham notícias dos filhos extraviados, algunshaviam visto sucumbir pessoas queridas sob os bombardeamentoalemães que todos os dias se renovavam e não poupavam osfugitivos apavorados. Quantos tiveram de inumá-los antes deproseguirem na luca correria da fuga !

---------"Mas alémdeste aspecto emocionante ao máximo, que me enchia decomiseração por tanto infortúnio, outro havia para mim que nãoera para desprezar, o da sorte que estava reservada a tanta gentese caíssem nas mãos doinimigo. Com efeito, eram numerosos entre os fugitivos osoficiais dos exércitos dos países ocupados anterioramente, austríacos, checos epolacos, os quais seriam fuzilados como rebeldes; eram igualmentenumerosos os belgas, holandeses, franceses, luxemburgueses e atéingleses, que seriam submetidos ao duro regimen dos campos deconcentração alemães: havia intelectuais eminentes, artistasde renome, homens de Estado, diplomatas, da mais alta categoria,grandes industriais e comerciantes, etc, que teriam a mesmasorte.

---------"Muitos deleseram judeus, que, já perseguidos antes,procuravam escapar angustiosamente escapar ao horror de novasperseguições, por fim um semi-número de mulheres de todos os países invadidos queprocuravam evitar ficar à mercê da brutal sensualidade teutónica.

---------"Junta-se aeste espectáculo o decentenares de crianças, que, acompanhando os pais, participavamdos seus sofrimentos e angústias, demandando cuidados queeles, naquela situação, lhes não podiam prestar. Pensemosainda que toda esta multidão, por falta de alojamento, dormianas ruas e praças públicas sujeita àintempérie.

--------"Quantos suicídios e outrs actosde desespero se produziram, quantos actos de loucura de que eu próprio fuitestemunha!

-------"Tudo istonão podia deixar de me impressionar vivamente, a mim que souchefe de numerosa família e compreendomelhor de que ninguém o que significa a falta de protecção àfamilia.

-------"Dai a minhaatitude, inspirada única eexclusivamente nos sentimentos de altruísmo e degenerosidade de que os portugueses, através dos oito séculos dehistória, souberamtantas vezes dar provas eloquentes e que tanto ilustraram osnossos feitos heróicos. (folha 105 verso)

SousaMendes conclui com grande dignidade:

-------"Concluindo,peço licença a V. Exc. para declarar mais uma vez que, em tudo,procedi forçado pelas circunstâncias que sobre o meu espiritoactuavam como razões de força maior.

-------""Procureihonrar a missão que me estava confiada e defender o nosso bomnome de prestígio. Recorreram amim, como representante de Portugal...pessoas das mais eminentesde muitos países com os quaismantivemos sempre as melhores relações: homens de Estado,Embaixadores e Ministros, generais e outos oficiais superiores,Professores, homens de letras, académicos, artistes de renome,jornalistas, alguns deles com serviços a Portugal, estudantesuniversitários, pessoal devarias organizações da Cruz Vermelha, membros de casasreinantes, principes de sangue, combatentes de todas as patentose postos, industriais e comerciantes, religiosos de ambos ossexos, mulheres e crianças carecendo de protecção. Delesrecebi, em geral, palavras de apreço a consideração porPortugal, país hospitaleiro eacolhedor, único na Europa ondepoderiam encontrar sossego e descanso para tantos sofrimentos efadigas.

------""Para a minhaconciência representam as suas palavras a mais preciosarecompensa pelo que por eles fiz. E agora consola-me sobremaneiraver nos jornais portugueses, diariamente, quanto a estada detodos esses estrangeiros está sendo apreciado e como eles semostram reconhecidos à hospidalidade portuguesa e dignos dela...

-----""Posso tererrado, mas, se errei, não o fiz com intenção, tendo procedidosempre segundo os ditames da minha consciência, que, apesar doesgotamento nervoso que sofri e sofro ainda pelo excesso detrabalho suportado, passando semanas quase sem dormir, nuncadeixou de me guiar no cumprimento das minhas responsabilidades ( folha 109).

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Reclamação apresentada à Assembleia Nacional em 1945.
Face a um julgamento fictício, cuja sentença parecia estar pré-determinada,

Sr. Presidente daAssembleia Nacional

Aristides de Sousa Mendes,ex-cônsul de Portugal em Bordéus, lugar de que foi destituídopelo ministro dos Negócios Estrangeiros, por motivo de ter, comdesobediência às instruções vigentes, dado vistos empassaportes a milhares de estrangeiros que procuravam no nossopaís abrigo contra a ameaça dos exércitos alemães, então emvias de ocupação do Sudoeste da França vem, no exercício doseu direito de reclamação, garantido no n.º 18 do art.º 8ºda Constituição, apelar para a Assembleia Nacional, comoencarregada pela mesma Constituição de « vigiar o cumprimentodas suas disposições e das leis da Nação » ( Art.º 91, n.º2) com os seguintes fundamentos:

Tendo-lhe sido enviadasinstruções pelo ministro dos Negócios Estrangeiros sobrevistos em passaportes, essas instruções continham na 1ªalínea a proibição absoluta de os dar aos israelitas, semdiscriminação de nacionalidade.

Tratando-se de milhares depessoas de religião judaica, de todos os países invadidos, jáperseguidas na Alemanha e noutros países seus forçadosaderentes, entendeu o reclamante que não devia obedecer àquelaproibição por a considerar inconstitucional em virtude doart.º 8.º n.º 3 da Constituição, que garante liberdade einviolabilidade de crenças, não permitindo que ninguém sejaperseguido por causa delas, nem obrigado a responder acerca dareligião que professa, medida que aliás se lhe tornavanecessária para saber a religião dos impetrantes, e assim negarou conceder o visto.

Nestes termos, se oreclamante não obedeceu à ordem recebida do Ministério, nãofez mais que resistir, nos termos do n.º 18 do art. 8º daConstituição, a uma ordem que infrigia manifestamente asgarantias individuais, não legalmente suspensas nessa ocasião(art.º 8.º, n.º 19).

E não se pretenda que ainviolabilidade de crenças não é, segundo a Constituição, umdireito para os estrangeiros visados, por não se acharemresidindo em Portugal, único caso em que poderiam ter os mesmosdireitos que os nacionais (do art.º 7.º) pois não se trata nocaso presente de um direito dos estrangeiros mas de um dever dosfuncionários portugueses, que nem em Portugal nem nos seusConsulados, também território português, poderão sem quebrada Constituição interrogar seja quem for sobre a religiãoprofessada, para negar qualquer acto da sua competência, o que aadmitir-se significaria odiosa perseguição religiosa, mormentequando se impunha o direito de asilo que todo o país civilizadosempre tem reconhecido e praticado em ocasiões de guerra oucalamidade pública.

Espera o reclamante que aAssembleia, na alta função de vigiar pelo cumprimento da lei,haja por bem declarar nula a pena que lhe foi imposta, por motivoda desobediência às instruções citadas, exigindo a respectivaresponsabilidade àquele ou àqueles funcionários que, dando-lhea referida ordem, «atentaram contra a Constituição e o regimeestabelecido» (art.º 115.º, n.º 2) reconhecendo-lhe o direitoe reparações materiais e morais pelo prejuízo que lhe foicausado pelo processo disciplinar que lhe foi instaurado noMinistério (art.8.º, n.º18).

Não alegou na respostaque deu no mesmo processo disciplinar estas circunstâncias, pelomotivo de, lavrando a guerra na Europa, não querer darpublicidade e relevo a uma atitude, por parte de funcionários doEstado, que sobre ser inconstitucional poderia ser interpretadacomo colaboração na obra de perseguição do governo hitlerianocontra os judeus, o que representaria uma quebra da neutralidadeadoptada pelo governo.

Não pode porém suportara evidente injustiça com que foi tratado e conduziu ao absurdo,a que pede seja posto rápido termo, de o reclamante ter sidoseveramente punido por factos pelos quais a Administração temsido elogiada, em Portugal e no estrangeiro, manifestamente porengano, pois os encómios cabem ao país e à sua populaçãocujos sentimentos altruístas e humanitários tiveram largaaplicação e retumbância universal, justamente devido àdesobediência do reclamante.

Em resumo, a atitude doGoverno Português foi inconstitucional, antineutral e contráriaaos sentimentos de humanidade e, portanto, insofismavelmente«contra a Nação».

Pede deferimento – Aristides de SousaMendes.

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2 - 2004foi o ano das comemorações do 50º aniversário da morte de umdos vultos maiores do humanismo europeu da históriacontemporânea – O cônsul Aristides de Sousa Mendes.

 

30 cidades celebram a memória de Aristides de SousaMendes.

Nosjardins do Museu do Holocausto de Jerusalém, existe uma ala, quese chama a Ala dos Justos, na qual estão plantadas 12 milárvores em memória dos 12 mil homens e mulheres até hojeencontrados, que salvaram judeus durante a II Guerra Mundial.

  Entre todas essas árvores, existe uma, mais alta do que as outras, que tem o nome de Aristides de Sousa Mendes.

Para as autoridades do Yad Vashem - Museu do Holocausto de Jerusalém, Aristides de Sousa Mendes é o homem que, individualmente, mais vidas humanas salvou, como se sabe, cerca de 30 mil, das quais mais de 10 mil judeus.

Aristides de Sousa Mendes, cônsul português em Bordéus, é recordado por ter emitido vistos de entrada em Portugal a 30 mil pessoas em Junho de 1940, sendo depois castigado por Salazar, que o afastou da carreira diplomática.

Perante o avanço incontrolável do nazismo, o Cônsul Aristides de Sousa Mendes encontrou-se perante o dilema tão comum nessa época: se por um lado era impossível esquecer a multidão de refugiados perseguidos por Hitler aos quais ele próprio - sabia-o bem - poderia abrir as portas da salvação e da liberdade,

 

poroutro era claro que ao abrir essas portas ele estaria acondenar-se a si mesmo por actuar de forma oposta à políticaexterna do seu Governo.

  A decisão de Aristides de Sousa Mendes de desrespeitar as ordens de Salazar - então Ministro dos Negócios Estrangeiros - e, por consequência, de desacreditar a política externa do Estado Português, revela-se assim como uma dupla arma: com esse acto ele impõe uma derrota ao regime nazi e, simultaneamente, condena implicitamente a atitude de Portugal. A legalidade nem sempre é a melhor aliada quando estão em causa os Direitos dos homens e o diplomata, católico convicto, não hesitou em salvar pessoas de outra religião. "Prefiro estar com Deus contra os homens que com os homens contra Deus", justificava.

Aactuação de Aristides de Sousa Mendes como Cônsul Geral deBordéus não é apenas um acto heróico, mas acima de tudo umacto de grande lucidez: ele sabia estar a condenar-se a sipróprio e que esse era o preço a pagar pela opção em favordos mais fracos de todos.

A30 de Outubro de 1940, Aristides de Sousa Mendes é condenado"... na pena de um ano de inactividade com direito a metadedo vencimento de categoria, devendo em seguida seraposentado.", despacho punitivo que Salazar nunca mandarianotificar ao arguido. Ordenou antes "que fosse fechado emenvelope lacrado e guardado no cofre do MNE." Com estadecisão, Salazar condenou-o a uma reforma compulsiva, nãoremunerada, com proibição da prática de advocacia. A afrontaexigia um castigo exemplar, o esmagamento do prevaricador e dasua família sob o peso da miséria e do ostracismo.

Comesta realidade, nada mais restava a Aristides de Sousa Mendes doque lutar pela sua reabilitação. Contudo, vinte anos teriam dedecorrer depois da sua morte, ocorrida em 1954, para que ahistória deste homem exemplar voltasse à luz do dia.

Assim,hoje terão lugar celebrações em 21 países que assinalam aacção de Aristides de Sousa Mendes no 50º aniversário da suamorte. A iniciativa é da Raoul Walleenberg Foundation, com oapoio do Vaticano, do Ministério dos Negócios Estrangeiros dePortugal e do Comité Internacional Angelo Roncalli.

  Foi a 17 de Junho de 1940 que o diplomata português, ajudado pelos seus dois filhos mais velhos, começou a passar vistos a refugiados de guerra, entre eles milhares de judeus, impedindo assim a sua prisão e eventual morte às mãos dos nazis.

No âmbito desta iniciativa, estão marcadas celebrações em igrejas católicas ou sinagogas da Argentina, África do Sul, Angola, Bélgica, Brasil, Canadá, Cabo Verde, China, Espanha, Estados Unidos, França, Israel, Itália, Luxemburgo, Guiné-Bissau, Moçambique, Polónia, Portugal, Suíça, Timor-Leste e Venezuela...

...EmRoma será o Cardeal Renato Martino, presidente do ConselhoPontifício Justiça e Paz a presidir à Missa ...foi o oradorprincipal, traçando o perfil de Sousa Mendes como "um homembom cuja coragem deveria servir de inspiração para todos"

AFundação Aristides de Sousa Mendes explica em comunicadoenviado à Agência ECCLESIA que no 50º aniversário da suamorte, estão previstas cerimónias de reconhecimento e deacção de graças em mais de 30 cidades. "Esta é uma formade fazer justiça e de cumprir o nosso dever de lutar contra oesquecimento, a indiferença, e a intolerância", refere otexto.Nacional | Octávio Carmo| 17/06/2004 |

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Mensagem do Presidente do Instituto Superior Politécnico de Viseu,
Prof. Doutor João Pedro Antas de Barros,

expressamente redigida para a obra Tributo a Aristides de Sousa Mendes

O LEGADO HUMANISTA DE ARISTIDESDE SOUSA MENDES

O Instituto Superior Politécnico deViseu não pode deixar de se associar às comemorações do 50ºaniversário da morte de um vulto maior do humanismo europeu. Ocônsul Aristides de Sousa Mendes...(Ver zcinquantenaire)

O homem, a sua memória e o seu legado,representam tudo o que a sociedade projecta como sendo o idealhumano, na defesa intransigente dos direitos, garantias eliberdades. Nos valores intrínsecos, vincadamente solidários.No respeito, tolerância e abnegação pelo próximo.

Honrar e perpetuar a sua memória é umdesígnio de todos nós. Imbuir a sociedade contemporânea e asgerações vindouras do humanismo personificado em Aristides deSousa Mendes, um postulado!

É este o grande desafio. Dizer aomundo em que vivemos, ao homem dos dias que correm, repetidasvezes apodado de individualista, egocêntrico e sem referências,que um Homem, numa época de grandes turbulências, desubjugação dos direitos mais elementares, lutou, estoicamente,e triunfou. Em defesa do maior direito do ser humano – o deexistir enquanto tal.

É este triunfo do Homem sobre osdéspotas deste mundo e dos valores enviesados que por vezes nostentam impor, que urge cristalizar na memória colectiva dahumanidade. No seu código genético.

Só assim é possível tornar realidadea aparente utopia da construção de um mundo melhor e de umasociedade mais justa e solidária.

--x--

Aristides de Sousa Mendes do Amaral eAbranches, português, nascido na pequena localidade de Aido,Cabanas de Viriato, distrito de Viseu. Licencia-se em Direito emCoimbra e, ao invés de seu pai que era juiz, envereda pelacarreira diplomática. Passa por variadíssimos países,nomeadamente Guiana, Espanha, Brasil e Estados Unidos, onde, naCalifórnia, nascem dois dos elementos da sua numerosa prole. Apulso ascende na carreira diplomática, pejada de inúmerosobstáculos e contrariedades face às suas monárquicasconvicções. Em plena II Guerra Mundial, quando Hitler invade aFrança, é Cônsul Geral de Portugal em Bordéus. Os refugiados,aos milhares, oriundos dos países que, à semelhança da Françahaviam sido invadidos pelos Nazis em busca de Lebensraum

1– espaço vital - como aPolónia, a Áustria ou a Checoslováquia, deambulam pelas ruasà procura de salvação. Sob as suas cabeças paira o negroespectro da morte! Seguidor de Salazar, Sousa Mendes não hesitaem socorrer aqueles que, desesperadamente, dele necessitam. Parao efeito, corajosamente desobedeceu às ordens que havia recebidode, em circunstância alguma, emitir vistos a refugiados. Assimestipulava a famigerada Circular nº 14, emanada do Ministériodos Negócios Estrangeiros em 11 de Novembro de 1939. A cobertodesta, o regime português vedava as suas fronteiras aosrefugiados, sobretudo aos de origem semita. Ainda por cima emflagrante violação da constituição portuguesa de 1933, queproibia a discriminação por motivos religiosos. Suprema ironia!Multidões de desesperados acorrem ao consulado português, sitoao número 14 da Quai Louis XVIII, em busca de um visto. Almejadopassaporte para a liberdade e, acima de tudo, para a vida. Até18 de Junho de 1940, Aristides atribuiu 30.000 vistos. A judeus,polacos, membros da resistência francesa e demais refugiados.Nomeadamente a portadores de passaporte Nansen – documentosespeciais de identidade emitidos pelo Alto Comissário para osRefugiados da Liga das Nações, o norueguês Fridtjof Nansen.Consta que, só de uma vez e durante alucinantes 72 horas,concedeu vistos a uma chusma de refugiados que se apinhava àporta do consulado. Detido, quando regressava a Portugal sobcustódia da polícia portuguesa, ainda fez passar, pela janelada casa de banho da carruagem do comboio onde vinha, mais 500vistos. (...) Era realmente meu objectivo salvar toda aquelagente, cuja aflição era indescritível

(...). Homem de coragem, ousa enfrentarnão um, mas três ditadores. Ordena que, de imediato, seconcedam vistos a quem deles necessitar. Para tornar o processoainda mais célere, determina que, os mesmos, sejam outorgadossem a cobrança de emolumentos. Perante tamanha audácia, ogoverno decreta a nulidade dos vistos já emitidos. Não sedeixando abater, ou sequer vergar, desloca-se a Hendaye, junto àfronteira espanhola, para, pessoalmente, fazer passar os milharesde refugiados e emitir mais vistos, à chuva, sob o capot docarro. Pagou caro o arrojo. Muito caro! Proscrito e votado aoostracismo, este último extensivo à sua família, édestituído do cargo. Como se isso não bastasse, é proibido deexercer advocacia e vê-se privado da reforma a que tinhadireito. Para sustentar a família e liquidar as dívidas que,entretanto, contraíra, vê-se obrigado a desbaratar os seusbens. Entre eles a Casa do Passal, em Cabanas de Viriato, vendidaem hasta pública. Crente fervoroso, a expensas suas mandaraerigir, em 1933, um monumento a Cristo Rei. Ainda hoje se podeadmirar, junto ao que da sua casa resta. É único no país. Namais completa miséria, recorre à Cozinha Económica –cantina gerida pela comunidade judaica. Inclusive vê-se obrigadoa aceitar uma pequena subvenção desta mesma comunidade, que,aliás, já o ajudava a pagar a renda de um pequeno imóvel quese vira obrigado a alugar em Lisboa. Sozinho, morre a 3 de Abrilde 1954. Assim desaparece aquele que disse, um dia, preferirficar com Deus contra os homens do que com os homens contra Deus.Aquele que, de livre e espontânea vontade e consciente dosriscos que corria, pessoais e familiares, não hesitou em salvarda morte 30.000 pessoas. Os seus descendentes, para sobreviver,viram-se obrigados a emigrar. Alguns, ajudados e apoiados poraqueles a quem Sousa Mendes havia salvo. Assim deixava este mundoaquele que, para tantos milhares, foi o anjo de Bordéus.

Portugal não soube, ou não quis,prestar-lhe a homenagem devida. Contudo, Israel já homenageouSousa Mendes, plantando, em sua memória, na Floresta dosMártires junto ao Yad Vashem - o Museu do Holocausto - umaárvore por cada uma das vidas judaicas que salvou. Também lheatribuiu, a título póstumo, uma medalha, em cujo reverso podeler-se a citação do Talmude quem salva uma vida humana, é comose salvasse um mundo inteiro.

Que dizer deste HOMEM que, segundo ohistoriador Yehuda Bauer, perito da História do Holocausto,sozinho, contra tudo e contra todos, realizou a maior operaçãodesalvamento da História do Holocausto?

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CABANAS de VIRIATO

Quando aFrança é ocupada pelo exército alemão, milhares de refugiadosconcentram-se junto à Embaixada de Portugal, em Bordéus,fugindo aos bombardeamentos e às perseguições nazis, naesperança de obterem um visto que lhes permita chegar a Portugale, a partir de Lisboa, embarcarem rumo à América.

A 1 de Agostode 1938, o Dr. Aristides de Sousa Mendes é nomeado cônsul dePortugal em Bordéus - França.
Contrariando as ordens recebidas pelo governo português,Aristides de Sousa Mendes assume, com a concessão indiscriminadade vistos aos refugiados, uma atitude de coragem cívica e moral,sobrepondo assim aos interesses pessoais, familiares eprofissionais, os valores humanitários e cristãos ditados pelasua consciência.

Comoresultado, é alvo de um processo disciplinar que o impede deprosseguir a carreira diplomática e até de exercer a advocacia,enfrentando graves dificuldades económicas.

Aristides deSousa Mendes era um funcionário obediente. Sabia que não podia“passear” com o carimbo da chancelaria portuguesa nobolso das suas calças. Mas, que importava isso em Julho de 1940,quando os invasores nazis já ocupavam Bordéus e Bayonne? A suaassinatura concedia-a de graça e isso significava a vida paramuita gente.

Quando foipreso pelo Dr. Theotónio Pereira e pelo Dr. Francisco de PaulaBrito Júnior, Sousa Mendes encontrava-se na gare de combóios deIrún, em mangas de camisa, debaixo da chuva, com os carimbos aolado assinando papéis. Depois de 32 anos de serviço, o Dr.Mendes é demitido sem receber qualquer reforma ouindemnização, e tem 12 filhos para criar.

Aristides deSousa Mendes, diz no seu testemunho de defesa com data de 12 deAgosto de 1940: «era na verdade minha intenção salvar todaaquela gente (...) Posso ter errado mas, se errei, não fiz comintenção tendo procedido sempre segundo os ditâmes da minhaconsciência que, apesar do esgotamento nervoso que sofri e sofropelo excesso de trabalho suportado, passando semanas quase semdormir, nunca deixou de me guiar no cumprimento dos meus deveres,com pleno conhecimento das minhas responsabilidades».

Sousa Mendesmorre «pobre e desonrado», no Hospital da Ordem Terceira, emLisboa. A causa do óbito foi trombose cerebral agravada porpneumonia. Depois da sua morte, a sua casa de Cabanas de Viriato,bem como o recheio, foram vendidos em hasta pública pelasdivídas não pagas. Apenas as paredes foram poupadas, ficando oseu interior completamente vazio e à mercê de estranhos que aolongo dos anos a aproveitaram para galinheiro, pocilga ou mesmorefúgio de rebanhos.

À famíliaque tanto amava nada deixou a não ser o jazigo onde o seu corpoficou a repousar. A sua morte passou despercebida em Portugal. EmLéopoldoville, capital do Congo Belga, um refugiado que eletinha ajudado lembrou-se do corajoso cônsul e escreveu nanecrologia de um jornal: «Un grand ami de la Belgique estmort.»

Em 1967, emNova Iorque, a Yad Vashem, organização israelita para arecordação dos mártires e heróis do Holocausto, considera-oum Gentio Virtuoso e homenageia Aristides de Sousa Mendes com asua mais alta distinção: uma medalha comemorativa com ainscrição do Talmude «Quem salva uma vida humana é como sesalvasse um mundo inteiro» e, no jardim que relembra os quearriscaram a vida para salvar os judeus na II Guerra Mundial, háuma árvore em sua memória. A Censura salazarista impede que aimprensa portuguesa noticie o acontecimento.

Encorajadacom a homenagem de Israel, Joana Sousa Mendes, filha deAristides, em 1969 escreve ao Presidente Américo Tomás a pedira reabilitação da memória do seu pai. Não obtém qualquerresposta.

Em Portugal,o “caso” Sousa Mendes só vem a público em 1976 com umartigo de António Colaço no Diário Popular. Tema retomado em1979 por António Carvalho num outro artigo em A Capital. Em 1979o Presidente Mário Soares concede, a título póstumo, a Ordemda Liberdade.

No dia 3 deAbril de 2004 uma missa foi rezada em Cabanas de Viriato, naIgreja onde Aristides de Sousa Mendes era paroquiano. Sua mulherD. Angelina de Sousa Mendes foi lembrada com ele. Falecera em1948, aos 59 anos de idade, depois de estar em coma váriosmeses. Ela tinha participado e aprovado inteiramente as decisõesque Sousa Mendes tinha tomado em Bordéus, nunca o censurou pelasdesastrosas consequências pessoais dessas decisões e sempre oapoiou.
O seu heroísmo e abnegação não eram inferiores aos dele.

Pelos 50 anosde sua morte foi inaugurado um painel de azulejos alusivo à suavida, colocado junto à rua que há-de designar-se de“Aristides de Sousa Mendes”. O Vigário Geral dadiocese de Viseu disse na cerimónia de descerramento do painel,que se estava perante “um herói e um santo”.“Herói” porque salvou a vida de milhares de pessoas deserem cremados nos campos de concentração. “Santo”porque poderia ter vivido na opulência mas por causa da sua fé,viveu os seus últimos dia na miséria, a comer a sopa dospobres.

EncontroMundial 2005 | Fórum de Organizações Católicas para aImigração (FORCIM)| 31/03/2005 |

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Numero 14

Cais LOUIS XVIII
Bordeaux - France

Aristides, o Cônsul que desobedeceu
"O meu desejo é mais estar com Deus contra o Homem
do que com o Homem contra Deus"

Uma peça de teatro por Dr.Antonio Sousa Mendes

O texto :

http://parnaseo.uv.es/Ars/Textos/Moncade.htm

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Aristides de SousaMendes
Em louvor de Aristides de Sousa Mendes
www.ieei.pt
Celso Lafer

A coragemé uma virtude rara pois é difícil ter a firmeza de espíritonas situações-limite do perigo. A coragem é uma virtude quetranscende as necessidades da vida e as exigências dasprofissões e, como foi o caso de Sousa Mendes, frequentementeexige a via solidária do rebelde consciencioso.

O Mundoem Português Nº55 Maiode 2004
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O Mundoem Português Nº55 Maio 2004 publicou egualemente um artigo
- no Site do Instituto de Estudos Estrategicas e Internacionais :
www.ieei.pt
Aristides de Sousa Mendes
O cônsul português que salvou milhares de vidas
de Bruno Cardoso Reis

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