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Os Vizinhos do Passal...

Existem ainda mais testemunhas: as de Cabanas de Viriato... em Junho de 1940 estavam presentes e viram tudo... mas talvez devido à sua condiçao social modesta são ignorados muitas vezes pelos historiadores...


Photographies de Paulo Novais

 

António Borges Silvestre

e José Barros Martins

...eram pequenos, durante as férias... José era o sacristão na missa a que assistiam Aristides e Angelina. Depois da missa era convidado a ir tomar o pequeno-almoço em casa do Cônsul.

Antonio tem hoje 86 anos, neste dia 3 de Abril de 2004, ele e José têm o prazer de responder às perguntas de Ana Maria Ferreira, da Agência Lusa.

Antonio e José insistiram em dar às suas recordações o seguinte titulo:
Memoria... do luxo à miséria em Cabanas de Viriato"
!

"A música saída da casa de Aristides de Sousa Mendes em Cabanas de Viriato, onde uma verdadeira «orquestra familiar» se instalava durante as férias do cônsul português, continua hoje na memória dos habitantes da aldeia, na altura crianças.

"Quando na freguesia - e um pouco por todo o mundo se comemora o 50º aniversário da morte do cônsul que, em Bordéus (França), em 1940, contrariou as ordens de Oliveira Salazar e passou vistos que salvaram milhares de refugiados durante a II Guerra Mundial - os momentos musicais e as festas luxuosas são alguns dos episódios recordados dos tempos áureos do «palácio», nome dado à Casa do Passal. «Ìamos para o muro da escola (em frente à Casa do Passal) e sentávamo-nos a ouvi-los tocar. Muitos tocavam piano, mas o Geraldinho era violino», contou O idoso referindo-se aos filhos de Aristides de Sousa Mendes, 14 do primeiro casamento com a sua prima direita Angelina, dos quais sabe os nomes todos e a ordem de nascimento, embora os agrupe por sexos.

«Aristides, Manuel, Zézinho, Geraldo, Pedro Nuno, Carlos, Sebastião, Luís Filipe e João Paulo. Conte lá, têm de ser nove. Agora as mulheres: Clotilde, Isabel, Joana, Teresinha e Raquel, a última morreu com 18 meses», nomeou.

  O casamento da filha mais velha, Clotilde, celebrado na Casa do Passal, ficou também na memória do idoso, que se lembra «que houve muita música, o chão estava coberto de flores para os noivos passarem e os convidados vestiam 'altos' fatos de gala. O povo todo foi ver».

O «Expresso dos Montes Hermínios»

A chegada da família a Cabanas de Viriato para mais umas férias era também sempre um acontecimento importante. Viajava numa espécie de autocarro que, na altura em que estava na Bélgica, Aristides de Sousa Mendes pediu ao seu filho Pedro Nuno para desenhar, com a condição que lá coubesse a numerosa família.

 

A viatura foi apelidada de «Expresso dos Montes Hermínios».
Segundo
António Silvestre, a vida daquela família importante, aristocrata, «mas sempre muito respeitadora e educada», gerava grande curiosidade nas pessoas.

«A gente não convivia muito com eles. Quando vinham cá de férias toda a gente os adorava, até às criadas deles que também eram muito educadas, mas eram vidas diferentes, eles tinham outra ascendência. Cumprimentavam-nos, seguiam o caminho deles e nós o nosso», recordou.

A diferença de classe notou-se até quando os rapazes da terra foram à inspecção para a tropa, a Carregal do Sal. Geraldo era da sua idade, mas não a fez ao mesmo tempo que os restantes jovens de condição humilde.

José Martins, apesar de não pertencer a nenhuma família aristocrata da região, teve oportunidade de conviver com os filhos do cônsul português por ser sacristão da igreja, entre os 11 e os 14 anos, o que lhe abriu as portas do «palácio».

Quando cá estavam de férias iam todos os dias à missa às 07.00 e comungavam. Era uma família muito religiosa», disse o idoso, que colecciona artigos de jornais sobre a família e tem escritos num caderno poemas e lembranças relativas a esse período.

A poucos meses de completar 80 anos, José Martins diz ter «fresco na memória» o dia em que a Casa do Passal foi benzida pelo padre, durante uma visita pascal.

«Os filhos e seis ou sete empregadas esmeradamente vestidas fizeram a recepção à entrada, beijaram a cruz e depois fomos benzer a capela que fica no terceiro andar e o resto dos aposentos», afirmou.

Com uma certa melancolia no rosto, José Martins lembrou também o dia em que chegou a Cabanas de Viriato, vinda da Bélgica, a imagem gigante de Cristo-Rei que foi colocada na propriedade, cujos caixotes serviram de brincadeira para os mais novos. «A partir dessa época fui sempre um adepto da vida desse homem de família», frisou.

A decadência !..

Por isso custou-lhe, assim como a outros habitantes da aldeia, assistir à decadência de vida de Aristides de Sousa Mendes, depois de Oliveira Salazar o ter «castigado» por não cumprir as suas ordens, expulsando-o da carreira diplomática.

«A minha família sofreu muito com isso e passou maus momentos. Mas nunca houve ressentimentos por o meu avó ter tido aquele gesto e salvo milhares de refugiados», garantiu Álvaro de Sousa Mendes, neto do cônsul português por parte da sua filha Clotilde.

Os últimos anos que Aristides de Sousa Mendes viveu na casa de Cabanas de Viriato com a sua segunda esposa, a francesa Andrée Cibial - um amor antigo de quem teve outra filha, Maria Rosa, concebida em Bordéus - contrastam muito com os períodos de férias passados com os outros 14 filhos de Angelina, que entretanto morrera em 1948.

A segunda esposa não era bem vista pela população da aldeia. Era tratada por «francesa», «estrangeira» ou «Penucha», por causa dos «penachos espampanantes» que habitualmente trazia no chapéu, explicaram António Silvestre e José Martins.

Foi ao lado da segunda mulher que adoeceu na miséria. Mas a população local não podia ajudar porque, «naquela altura havia muita miséria e toda a gente precisava como ele», disse António Silvestre. Por outro lado, mesmo nesse período, Aristides de Sousa Mendes continuava a ser vigiado e ajudá-lo era um risco.

Sem dinheiro e com a casa hipotecada, quando morreu, Aristides de Sousa Mendes teve como mortalha um hábito de burel dos franciscanos. (Reportagem da Lusa )--