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Um Cônsul Português Salva
Milhares de Judeus do Nazismo

 

O RABINO KRUGER
e
Schmil Goldberg:
lembram - se ! .
.

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24 de Janeiro de 2005, na data da comemoração dos 60 anos da libertação do campo de concentração nazista de Auschwitz-Birkenau, situado na Polônia, a Communidade judaica apresenta-nos :

Aristides de Sousa Mendes - Um Justo entre as Nações 

"Na Polônia já estou acostumado ao anti-semitismo e não me espanta que, no outro lado, na Alemanha, Hitler tome o poder. Pelas ruas de Berlim judeus são perseguidos, espancados e mortos - é que nos escrevem, é que nos dizem, é o que lemos, oi gewalt. O meu nome é Chaim Kruger e sou rabino numa klein statle, num pequeno povoado. "A guerra é inevitável", prevejo, "e em breve os nazis estarão aqui".

Não é fácil mas, com economias feitas penosamente, com a minha mulher e as nossas seis crianças, em 1938 conseguimos escapar de Varsóvia para Bruxelas."

"Em 1939 os alemães invadem a Polónia e, logo a seguir, os Países Baixos. Com a minha família, outra vez estamos em fuga. Chegamos a Paris, mas logo rumamos para sudoeste, porque os alemães já estão invadindo a França. Milhares, dezenas de milhares de refugiados, judeus e outras minorias, sao vistos no caminho; são anti-nazis franceses e belgas e holandeses e checos e alemães, também algumas famílias ciganas. Uma, ou duas vezes por dia, caças alemães mergulham em voo picado sobre as estradas e metralham os caminhantes. Há dezenas de mortos nas estradas, todos eles ensanguentados.Ainda ouço os gritos, choros, lamentações, oi wais mir. Quis D'us que eu, e os meus, tenhamos escapado sempre ilesos, graças a D'us, dank main Got."

"Para fugir à hecatombe, agora a nossa esperança é chegar à fronteira, atravessar a Espanha, entrar em Portugal e dali embarcar para América, onde parentes nossos esperam por nós."

"Chegamos a Bordéus em Maio de 1940 e a cidade está repleta de fugitivos. Procuro o Consulado espanhol para obter o visto no passaporte da minha família, mas um funcionário diz-me que sem antes obter o visto português não conseguirei o espanhol. Saio meio atordoado com a informação, não entendo o que se passa."

"Aqui fora um francês, também ele refugiado e, ao que suponho, comunista, explica-me:

- "Rabi, Franco foi ajudado pelos nazis durante a guerra civil espanhola. É por isso que não quer no seu território fugitivos do nazismo. Só os deixa passar se forem rumo a Portugal. Salazar, o primeiro-ministro português, está "entalado". Portugal tem uma aliança antiquíssima com a Inglaterra e um pacto recente com a Espanha. Se hoje pender para os Aliados, será invadido pelos alemães através de Espanha. Se pender para os alemães, a Inglaterra desembarcará tropas em Portugal. É claro que a simpatia do fascista Salazar vai para Hitler. Mas tem que fingir uma estrita neutralidade para evitar a intervenção quer do Eixo, quer dos Aliados. Por isso estou crendo que Salazar vai "lavar as mãos" e impedir a entrada de refugiados em Portugal... Aliás o Dr. Mendes já me disse que tem enviado centenas de telegramas para Lisboa, pedindo autorização para dar vistos e até agora não obteve qualquer resposta.

"- Quem é o Dr. Mendes?"
- É o Cônsul de Portugal em Bordéus, Dr. Aristides de Sousa Mendes.
"Mendes, Mendes... O nome bate-me nos ouvidos, reconheço-o, é marrano, é judeu. Tenho que falar com o Dr. Mendes."

"Dirijo-me ao Consulado de Portugal. O jardim e as ruas vizinhas estão repletas de refugiados, todos a aguardar vistos para seguirem viagem, são milhares em desespero. Identifico-me, peço para falar com o Dr. Mendes. Três horas depois sou recebido."

"É um cavalheiro muito distinto, porém com feições angustiadas. Deve estar vivendo uma grande tragédia, bem posso imaginar qual seja ela. Apresento-lhe a minha mulher e os meus filhos, conto-lhe do nosso êxodo de Varsóvia até Bordéus. Entende o meu sofrimento porque também ele tem muitos filhos, acho que doze. Convida-nos a pousar em sua casa para darmos algum descanso às crianças."

"Aceito, agradeço e pergunto-lhe se também ele é judeu. Sorrindo, esclarece: - Rabi, não se iluda com o meu sobrenome Mendes. Até onde eu posso rastrear, a minha família, há pelo menos cinco gerações, é de católicos fervorosos. Se, por acaso, tivemos um ancestral judeu, não é nada que nos desmereça, mas disso não temos conhecimento.

"Errei o alvo, main mazle, má sorte a minha,... Não sei como continuar a conversa. Engasgo-me.

Depois ouso perguntar- lhe quando podemos contar com os vistos para seguir viagem para Portugal. Acabrunhado, diz-me que nada pode garantir, ainda não tem a necessária autorização do seu Governo."

"- Então, Dr. Mendes, vamos ficar aqui em Bordéus à espera da matança?"
"Levanta-se. Amargurado, segura-me o braço."

- Rabi, tenha fé, nem tudo está perdido, confie na Divina Providência.' "Conduz-nos a sua casa, que fica no Quai Louis XVIII, por trás do Consulado. Apresenta-nos à sua esposa, D. Angelina, e a três dos seus filhos mais velhos. Indica os aposentos que nos destina. Deseja-nos um bom descanso. Apesar de gentio, apesar de goi, este Dr. Mendes is a Mensche, é realmente um Homem."

VISTOS PARA A VIDA

"É um espanto, este Dr. Mendes. Na manhã do dia 17 de Junho de 1940 avisa-me:- Rabi, sossegue, vou passar vistos a toda gente.

"Nos dias 17, 18 e 19, ele e dois dos seus filhos mais velhos trabalham sem parar, nem sequer para almoçar ou jantar, exaustão. Passam milhares e milhares de vistos, os refugiados já organizados em filas. Os passaportes são coletivos, familiares. No meu constam oito nomes, o meu, o da minha mulher e os dos meus filhos. Assim acontecendo com quase todos, calculo que o Dr. Mendes, nesses três dias, tenha passado uns 30 mil vistos, dos quais 10 mil a judeus, pelo menos."

"Não se dá por contente. Obedecendo às instruções que recebera de Lisboa, o Cônsul de Portugal em Bayonne recusa-se a passar vistos aos refugiados de guerra. Porém o Dr. Mendes é seu superior. Desloca-se a Bayonne, que fica junto da fronteira franco-espanhola, e é ele mesmo quem, mais uma vez, passa milhares de vistos."

"O mesmo acontece com o Consulado de Portugal em Hendaye. Também aí o Dr. Mendes passa milhares de vistos."

"No dia 24 de Junho o Dr. Mendes mostra-me e traduz-me um telegrama que acabara de receber. É chamado imediatamente a Lisboa e acusado por Salazar, o Primeiro-ministro português, de "concessão abusiva de vistos em passaportes de estrangeiros". Depois de 32 anos de serviço, o Dr. Mendes vai ser demitido sem receber qualquer pensão ou indenização, e 12 filhos tem ele para criar. Já teve 14, mas morreram 2, o segundo e o último, se não me engano. Cuidar de 12 filhos é pesado! Eu que o diga, que só tenho seis e bem sei como custa criá-los. Compadeço-me, voz embargada, ihre mazle, má sorte a sua. Mas é ele quem atalha, quem me anima:

" Rabi, se tantos judeus sofrem por causa de um demônio não-judeu, também um cristão pode sofrer com o sofrimento de tantos judeus...'

"A grosse Mensche, um grande Homem!"

Salazar condena Sousa Mendes a um ano de inatividade e depois aposenta-o sem qualquer vencimento.

1945: Termina a II Guerra Mundial com a vitória dos Aliados (França, Grã-Bretanha, Estados Unidos da América, União Soviética, etc.).

Aristides de Sousa Mendes dirige carta à Assembleia Nacional, reclamando (em vão) contra o castigo que lhe fora imposto pelo Governo.

Schmil Goldberg:

SALAZAR NÃO PERDOA "O meu nome é Schmil Goldberg. Mas, se quiserem, podem tratar-me por Samuel. Sou judeu e americano. Em 1941 estou em Portugal para dar assistência a refugiados de guerra, trabalho voluntário. Na Cozinha organizada pela Comunidade Israelita de Lisboa tenho a oportunidade de conhecer o Dr. Aristides de Sousa Mendes. Foi ele o diplomata, o Cônsul que, na França, passou milhares e milhares de vistos a judeus fugidos do nazismo. Uns já partiram para a América, outros ainda estão em Portugal."

"Também prestamos auxílio ao Dr. Sousa Mendes, pois ele e a família estão muito carentes. Foi demitido, não recebe qualquer pensão do Governo e, apesar de licenciado em Direito, está proibido de exercer a advocacia e os seus filhos foram impedidos de frequentar a Universidade. O seu irmão, que era embaixador, também foi demitido. Vê-se que Salazar jamais perdoará o gesto humanitário do Dr. Sousa Mendes."

"Num povoado do Distrito de Viseu, o ex-Cônsul possui um palácio onde chegou a abrigar muitas famílias de refugiados, às quais, na França, passara vistos para entrada em Portugal. Mas, para atender às necessidades da sua numerosa família, foi obrigado a hipotecar todo os móveis. O Dr. Sousa Mendes já não dispõe de meios financeiros para sobreviver, está condenado à miséria. Temos o dever de auxiliá-lo e auxiliamos. Até lhe proporcionamos condições para que alguns dos seus filhos emigrem para os Estados Unidos e Canadá. Os que lá se estabelecerem mandarão cartas de chamada para os outros, estou certo disso." Em 1948 o Cônsul fica viúvo.

Pede deferimento (a) - Aristides de Sousa Mendes »

Não recebo qualquer resposta.

Estou pois definitivamente condenado à miséria e à desonra."

Em 1954, assistido apenas por uma sobrinha, Aristides de Sousa Mendes morre «pobre e desonrado», no Hospital da Ordem Terceira, em Lisboa.

HOSPITAL DA ORDEM TERCEIRA (sobrinha de Sousa Mendes lembra-se...)

Lisboa, 3 de Abril de 1954. Estou no Hospital da Ordem Terceira, na Rua Serpa Pinto. Abro a mala, retiro o lenço, enxugo os olhos.

O meu tio, Dr. Aristides de Sousa Mendes, acaba de falecer, trombose cerebral agravada por pneumonia. A sua esposa, a minha tia Angelina, morreu em 1948 com uma hemorragia cerebral e ficou vários meses em coma, coitada. Todos os seus filhos, meus primos, vivem hoje nos Estados Unidos e no Canadá. Conseguiram escapar a tempo deste purgatório... Sou eu a única familiar presente. O meu tio era um homem bom, sempre a pensar no bem dos outros. É por isso que morre pobre e desonrado".

MEMÓRIA

Em 1967, em Nova Iorque, a Yad Vashem, organização israelita para a recordação dos mártires e heróis do Holocausto, homenageia Aristides de Sousa Mendes com a sua mais alta distinção: uma medalha comemorativa com a inscrição do Talmude «Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro».

A Censura salazarista impede que a imprensa portuguesa noticie o acontecimento.

Encorajada com a homenagem de Israel, Joana Sousa Mendes, filha de Aristides, em 1969 escreve ao Presidente Português, Américo Tomás, pedindo a reabilitação da memória do seu pai. Não obtém qualquer resposta.
Em Portugal, o "caso" Sousa Mendes só vem a público em 1976 com um artigo de António Colaço no Diário Popular. Tema retomado em 1979 por António de Olhona Midia ( Brésil ) 24 de Janeiro de 2005. Na data da comemoração dos 60 anos da libertação do campo de concentração nazista de Auschwitz-Birkenau, situado na Polônia. ...
http://www.deolhonamidia.org.br/Publicacoes/mostraPublicacao.asp?tID=161
e com uma expressão semelhante :
http://www.marchadavida.org.br/textos/Justos/Aristides.asp
www.chabad.org.br/biblioteca/artigos/Aristides/home.html

 

 

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