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Ele soube dizer Não!  

Tudo iria mudar para Aristides, para a esposa e para os 12 filhos. Foi uma vida familiar feliz que, em comum acordo com Angelina, sua esposa, ele sacrificou. Aristides ousou "colocar os seus próprios imperativos de consciência à frente das suas obrigações de funcionário", invocou Salazar, indignado, para justificar o castigo implacável que fez recair sobre toda a família. Mas seria alguma vez possível imaginar que eles, Aristides e Angelina, pudessem fechar os olhos e os corações ao verem tantos milhares de pessoas a fugir da barbárie nazi? Nessa época, o consulado português de Bordéus estava situado junto da ponte que vemos na imagem, junto às margens do Gironde.


--------------Junho de 1940: Água-forte de Ch. Philippe, datada de 1942 - Sudoeste, 16 de Junho de 1990

Os acontecimentos sucederam-se com imprevisível rapidez:

- A 1 de Setembro de 1939, Hitler invadiu Dantzig; no dia 29 do mesmo mês, chegou a Varsóvia.

  - Com o intuito de pôr termo à ambições de Hitler e de honrar os seus compromissos, a Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha; contudo, no início, todos se entrincheiraram dentro das suas próprias fronteiras, devido ao rigoroso Inverno de 1939-1940.

Um episódio de guerra um pouco insólito...

- A 10 de Maio de 1940, o exército de Hitler invadiu os Países Baixos, a Bélgica e o Luxemburgo.

Desta vez, decorreu a chamada "guerra-relâmpago". Ao pedido de ajuda da Bélgica, a França e a Inglaterra enviaram para a região as unidades mais bem equipadas. Porém, as linhas da frente foram derrubadas e essas unidades não tardaram a ver-se cercadas. Com efeito, ultrapassando a Linha Maginot, Hitler invadiu a região de Ardennes.

- A 20 de Junho, alcançou o mar na foz do Somme.
- A Holanda capitulou a 15 de Maio e a Bélgica a 28.
- As 45 divisões, privadas da sua rectaguarda e sem qualquer possibilidade de reabastecimento, recuaram em direcção à Inglaterra.

- O Comando aproveitou este compasso de espera para organizar uma nova linha de defesa, mas o tempo escasseava; a 14 de Junho, a Wehrmacht chegou a Paris e a Luftwaffe tomou conta dos céus.

- Estima-se entre 8 e 10 milhões o número de pessoas que, receando ver o seu país transformado num campo de batalha, abandonaram das cidades e vilas, obstruindo as estradas.  

Os campos esvaziaram-se e os parisienses juntaram-se aos belgas, aos holandeses e aos outros habitantes da Europa Central que já tinham procurado refúgio nestes países.

Todos os meios de transporte foram utilizados durante este êxodo: carros, camiões, bicicletas, charruas e charretes e, para os que não tinham outra alternativa, a longa caminhada a pé.Tentem imaginar Bordéus! Tornara-se impossível circular pelas ruas... Quem consegue ainda recordar ou sequer imaginar o terror que se apoderou dos 2 milhões de habitantes da cidade?
Nada mais havia a fazer ali; não restava outra alternativa senão procurar a liberdade noutro lugar. Uns esperavam embarcar para a Inglaterra, outros contavam atravessar a Espanha e Portugal e daí partir para outro refúgio noutro continente. Mas para isto era necessário um visto.

  O consulado de Portugal estava situado no centro de Bordéus, mesmo no centro daquela tormenta. Aristides de Sousa Mendes tinha acolhido o Rabi Jacob Kruger, um rabi de Antuérpia, e a família deste, mesmo sem os conhecer. E foi uma conversa com o rabi que fez mudar tudo. "Vou tentar deixá-lo partir com a sua família", dissera-lhe Sousa Mendes.

"Não é apenas a mim que deve ajudar, mas a todos os meus irmãos que se arriscam a morrer", respondera-lhe o rabi. Aristides fechou-se no quarto durante três dias.

Depois, em acordo com a sua esposa, abriu a porta da chancelaria e gritou para todos os que se aglomeravam em frente ao consulado:

"Daqui em diante, passarei vistos a toda a gente; já não há nacionalidades, nem raças, nem religiões..."

Uma vez tomada esta decisão, Aristides assinou vistos e passaportes aos milhares.
...Sébastien explica: "Os gabinetes do consulado encheram-se de refugiados. Esgotada a reserva de formulários, utilizaram-se folhas brancas, depois pequenos pedaços de papel; o importante era mesmo o selo do consulado e a assinatura de Sousa Mendes. Este, com a ajuda do Rabi, de César e de Pedro Nuno, assinaram documentos durante dias seguidos, desde as 8:00 às 3:00 da manhã".

Em Lisboa, as autoridades começavam a inquietar-se. Salazar, simultaneamente Primeiro-Ministro e Ministro dos Negócios Estrangeiros, tinha dado aos consulados a ordem de não passarem vistos "às pessoas que chegassem dos países de Leste invadidos pelos alemães, aos suspeitos de actividades políticas contra o nazismo e aos judeus".

"É necessário evitar a entrada em Portugal de gente indigna", dizia a circular nº 14, de 11 de Novembro de 1939. Sousa Mendes, baseando-se no artigo da Constituição Portuguesa que negava qualquer forma de descriminação, declarou:

"Se for preciso desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus". Obrigado a regressar a Portugal, Aristides continuou a passar vistos durante a viagem. Em Bayonne, cujo vice-cônsul, legalista, respeitava as ordens do Governo, Aristides retorquiu:

"Ainda sou seu superior" e continuou a passar vistos durante a viagem. "Ele fazia-o de pé, em escadas e mesmo na rua", conta uma vizinha sua. O exército alemão não demoraria a alcançá-lo, pois já havia chegado a Bordéus; dentro de alguns dias chegaria a Hendaye.

Sousa Mendes sacrificou a sua carreira e foi demitido das suas funções por Salazar, a 4 de Julho, por ter

 
O exército alemão entra em Bordéus a 28 de Junho de 1940

"desonrado Portugal perante as autoridades espanholas e as forças alemãs de ocupação (...) e por ter ousado colocar os seus próprios imperativos de consciência à frente das suas obrigações de funcionário".

Aristides de Sousa Mendes tinha reflectido durante três dias antes de tomar a decisão precisamente para escolher em consciência. Aqueles que se empenham na via do diálogo quando o ódio do outro é o ponto de referência seguem o mesmo caminho. Remam contra a maré, mas no fundo de si próprios sabem e sentem o valor do que os move: o respeito que todo o ser humano merece. Mesmo que isso signifique ir ao limite do possível...

O Processo

A 4 de Julho de 1940, foi tomada a decisão de destituir Sousa Mendes das suas funções, mas, por formalidade, Salazar ordenou a abertura de um processo disciplinar. O auto de acusação do processo sublinhava a repetida violação da ordem vigente na circular nº 14 por parte de Aristides de Sousa Mendes, que é também acusado de ter ordenado ao cônsul de Bayonne e de Toulouse de concederem vistos ilegalmente. Sousa Mendes foi ainda acusado de ter desonrado Portugal perante as autoridades espanholas e alemãs.

Por seu turno, Aristides recorreu a três testemunhas para sua defesa: Francisco de Calheiros e Meneses, embaixador em Bruxelas, que fora visitá-lo muitas vezes a Bordéus. Este embaixador conhecia as circunstâncias concretas em que se encontrava o cônsul. Efectivamente, esta testemunha descreve a situação em Bordéus na época e conclui: "Aristides de Sousa Mendes não teve força para resistir aos pedidos dos refugiados". As outras duas testemunhas, ausentes no momento em que decorreram os factos, insistiram na integridade moral e profissional do cônsul.

A 12 de Agosto, Aristides de Sousa Mendes apresentou a sua defesa, acrescentando um artigo do Diário de Notícias que prestava homenagem à hospitalidade de Portugal face aos refugiados: "O nosso acolhimento fez-se independentemente da nacionalidade, opinião, raça ou cor da pele, tendo sido unicamente guiado por um sentimento de solidariedade perante a confusão decorrente da desgraça humana na Europa...".(Textos escolhidos)

" Sousa Mendes retomou os diferentes pontos de acusação, dizendo: "O meu objectivo foi acima de tudo humanitário, dado que era necessário salvar todos aqueles infelizes e impedir a divisão das famílias. O que seria deles se tivessem caído às mãos do inimigo?

  "Muitos deles eram judeus, já anteriormente perseguidos e que procuravam escapar ao horror de novas perseguições. Havia também inúmeras crianças testemunhas da angústia dos seus pais". O cônsul conclui que, ao salvar milhares de vidas, honrou Portugal e a tradição cristã do seu país.

Disse ele em conclusão : "Agi sempre de acordo com a minha consciência. Fui sempre guiado pelo sentido do dever na plena consciência das minhas responsabilidades".

O veredito chegou a 29 de Outubro:

Aristides de Sousa Mendes foi despromovido à categoria inferior. No dia seguinte, Salazar condenou-o a um ano de inactividade, auferindo metade do salário, e acabou por aposentá-lo no fim desse mesmo ano. O ditador nunca perdoou o cônsul por este ter ousado "colocar os seus próprios imperativos de consciência à frente das suas obrigações de funcionário".

A ruínas do Passal, no estado em que se encontravam em 1999, testemunhavam por si só o rigor da sentença. Estavam fechadas aos homens, mas abertas às galinhas, aos asnos e aos porcos.

Mas, durante os últimos meses de 1940, o Passal ainda serviu de refúgio aos que tinham sido beneficiados pelos vistos daquele que ainda era o dono da casa. Albert De Vleeschauwer, o ministro belga responsável pelo Congo, foi muitas vezes a Inglaterra para decidir o futuro daquele país africano. Sabia, sem dúvida, que a sua esposa e os seis filhos se encontravam em segurança no  refúgio do Passal. E a esposa do ministro belga não foi a única> personalidade importante a beneficiar do acolhimento.

José Martins recorda-se muito bem dos belos carros de matrícula estrangeira que chegavam à propriedade de Sousa Mendes. Um camião Ford, carregado de mobília de casa. Mas ninguém ousava perguntar o que quer que fosse. A casa estava cheia de pessoas desconhecidas.

As crianças estavam muito felizes por poderem brincar com os novos amigos da mesma idade, vindos de outros países. Depois, a casa foi-se esvaziando lentamente. Aristides e Angelina regressaram a Lisboa e explicaram aos empregados que, após o casamento de Clotilde, deixariam em breve de ter condições para lhes pagar o salário. Sabia-se apenas que o Senhor Cônsul tinha dificuldades financeiras e que ele e a família tiveram de ficar a morar em Lisboa na casa do primo Silvério.

Chegou depois o dia em que a carta de condução de Aristides, tirada no estrangeiro, deixou de ser aceite em Portugal. Ainda tentou, mais do que uma vez, renová-la, mas sem sucesso; acabou por ter de deixar o "Expresso dos Montes Hermínios" de vez na garagem, passando a viajar de comboio...

A partir desse momento, raramente iam a Cabanas de Viriato. Os vizinhos nunca mais tornaram a ver as crianças. Em Lisboa, Geraldo e Pedro prosseguiram os estudos na universidade e os filhos mais novos a escola secundária. Joana interrompeu os estudos e foi trabalhar como secretária, mas a situação da família agravou-se. «Aristides recorreu em vão ao Supremo Tribunal Administrativo e à Assembleia Nacional, explicando as razões de fundo da sua atitude: que tinha agido apenas pelo bom nome de Portugal e não por interesse próprio. Bordéus acabou por ser a última etapa da sua carreira. Nem sequer conseguiu exercer a advocacia.

Habituado a viver desafogadamente, Aristides passou os últimos anos de vida pobre e ignorado. Isaac Bitton, que hoje vive em Washington, conta que, ainda adolescente, ajudou a tia na gestão de uma cantina para os refugiados judeus de Lisboa. Certo dia, apareceu na cantina uma família numerosa pedindo para ser ajudada. Bitton disse-lhes: "Isto é uma cantina de comida económica israelita destinada aos refugiados pobres; porque é que vieram aqui?" - "Mas nós também somos refugiados", respondera-lhe o Dr. Sousa Mendes. Angelina faleceu em 1948. Os filhos foram obrigados a quebrar o elo familiar e a emigrar para os Estados Unidos, para o Canadá e para África. Esquecido por todos e privado da sua própria família, o antigo Cônsul de Bordéus morreu em 1954, após ter vendido tudo o que lhe restava. O pequeno palácio Sousa Mendes, em Cabanas de Viriato, onde outrora se viveram dias de esplendor e alegria, encontra-se hoje em ruínas, mas é ainda majestoso... (António Carlos Carvalho, Revista de Estudos Judaicos, Março de 1995)

As ruínas da bela casa do Passal continuam ainda hoje a testemunhar o preço que se pagava por desobedecer a Salazar, fosse qual fosse a razão.

A 23 de Janeiro, por ocasião do 60º aniversário da libertação dos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau, Maria Vitorino entrevistou Pedro Nuno sobre os acontecimentos de Bordéus e interrogou-o acerca das ruínas do Passal:

  "O Estado português autorizou-nos a comprar as ruínas e a criar uma Fundação para restaurar toda a propriedade, a fim de se criar um Museu." Não para a família, mas para Portugal e para o Mundo, para que ninguém esqueça "o português que salvou milhares de pessoas, para que a sua decisão sirva de exemplo". Porém, a 28 de Junho de 2005, Pedro Nuno deixou-nos. Consigo desaparecia também o último testemunho vivo dos dias decisivos de Junho de 1940. Maria de Magalhães Ramalho prestou-lhe homenagem no jornal Expresso. ver : Fundação
"Como judeus salvos por um homem justo, é nossa obrigação recordar sua vida e de todos que tiveram a mesma coragem. Agradecer a seus filhos e todos seus familiares e recordar a bondade, dignidade e princípio de um homem, que contra tudo e todos em sua época, lesou a si mesmo em prol de salvar vidas condenadas pelo nazismo na quase absoluta indiferença que dominava o mundo.

Hoje continuamos a precisar de "Aristídes", que lutam por um mundo melhor e mais justo para todos. Parafraseando o Talmud no monumento de Yad Vashem:

"Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro".

www.chabad.org.br/biblioteca/artigos/Aristides/home.html

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Sem dinheiro e com a casa hipotecada, quando morreu, Aristides de Sousa Mendes teve como mortalha um hábito de burel dos franciscanos.

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