Aristides de Sousa Mendes

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CÔNSUL DE PORTUGAL

EM BORDÉUS

1938 - 1940

por João Dinis Lourenço

Vice Cônsul de Bordéus

O 17 de Novembro de 1998, A.Sousa Mendes foi homenageado no Parlamento Europeu de Estrasburgo. Foi para o nosso revista "Ineraction Aquitaine Portugal" uma oportunidade de pedir ao Sr. João Dinis Lourenço, Vice-Consul do Portugal de Bordéus um artigo da sua autoria. Agradece-mo-los.

" Permitam-me iniciar esta breve mensagem, pela qual me associo à homenagem prestada a Aristides "de Sousa Mendes, dizendo que porventura só se encontra o verdadeiro heroísmo nas personalidades que nunca aspiraram a ser heróis; naqueles homens e mulheres que, ao longo da sua vida, e mau grado todos os obstáculos e dificuldades, se limitaram a permanecer fiéis aos valores e princípios em que firmemente acreditaram, e a agir de acordo com a sua consciência.

" Aristides de Sousa Mendes é um desses heróis, a quem se deve um reconhecido preito de reconhecimento. Para o Cônsul de Portugal em Bordéus, a desobediência a instruções iníquas, foi a única forma digna de desobediência a irrenunciáveis imperativos de humanidade e de solidariedade"  

Esta, é parte da mensagem com que o Presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio, homenageou no Parlamento Europeu de Estrasburgo, no passado dia 17 de Novembro de 1998, o homem que nos habituamos a admirar, a estimar e de que nos devemos orgulhar, por Ter ousado desobedecer, em plena ditadura, a uma ordem dos homens, para obedecer a um imperativo de consciência, arrancando e salvando de uma morte certa, alguns milhares de perseguidos e opositores ao regime nazi e muitos judeus.

- Poderá resumir em duas palavras, quem foi Aristides de Sousa Mendes ?

Como saberão, Aristides de Sousa Mendes, foi cônsul de Portugal em Bordéus, entre Julho de 1938 e Julho de 1940. Em Junho desse mesmo ano, este homem, ousou, não só não respeitar, como transgredir uma ordem emanada de Salazar , dando milhares de vistos a refugiados e opositores ao nazismo e a judeus , arrancando-os às garras de Hitler , tendo sido por esse facto mais tarde, julgado e condenado, acabando por morrer numa triste e extrema pobreza, no meio de muita dor física e moral.

- Encontra explicação para classificar esse gesto, sublime para uns e louco para outros ?

Como classificar o gesto de um homem que tinha uma vida de diplomata bem preenchida, uma vida familiar reluzente, que, a avaliar pelo número de filhos, nada menos do que 14, deveria ser vivida com uma enorme intensidade e também com alguma preocupação, mas que, conscientemente, sabia que o acto de desobediência às ordens recebidas, nada mais lhe acarretaria do que desagravos e iras da parte dos seus superiores e dos governantes do nosso País?

- Por quê então, ter decidido dar milhares de vistos a todos aqueles perseguidos do regime nazi ?

Para uma tentativa de explicação, vamos tentar decifrar a sua personalidade, enquadrar a sua acção num contexto histórico, servindo-me e apoiando-me fortemente para tal, nos dois livros publicados a seu respeito pelo escritor e jornalista Rui Afonso, que vive no Canadá, cujos títulos são "Um Homem Bom" e "Injustiça" , das edições Caminho, os quais, são, quanto a mim, extremamente interessantes, porque pouco lugar dão a conjecturas e veleidades literárias, agarrando-se e baseando-se muito mais a factos pesquisados , rebuscados e extraídos no processo de Sousa Mendes existente no Ministério dos Negócios Estrangeiros , pelos testemunhos orais e escritos dos seus familiares ainda vivos e de outras centenas de pessoas, que, de perto ou de longe, conheciam a vida profissional, social e familiar de Aristides de Sousa Mendes e também ainda, no livro saído há pouco, da autoria do jornalista francês , José Alain Fralon,. do jornal " Le Monde" intitulado "Le Juste de Bordeaux" das edições "Mollat". Aproveitamos, aliás, para aconselhar vivamente a leitura de qualquer destes livros.

- De onde lhe vem o seu interesse pessoal por Aristides de Sousa Mendes ?

Como é sabido, interessamo-nos mais facilmente por tudo aquilo que nos é próximo ou que, de certa maneira respeita à nossa pessoa, à nossa terra, ao nosso meio ou à nossa profissão.

  Ora, eu próprio, tive o privilégio de trabalhar, na qualidade de secretário, no antigo edifício do Consulado, onde estes factos se passaram, situado no Quai Louis XVIII, à beira do rio Garona, que aliás, muitos dos nossos compatriotas ainda conheceram, vítimas também das intermináveis bichas dos anos sessenta e princípios de setenta, que, penso, marcaram as suas memórias.

Trabalhei ali, naquele local, com outra pessoa também bem conhecida desses anos e que os emigrantes da década de cinquenta e sessenta conheciam. Trata-se de José de Seabra, que foi secretário do Cônsul Aristides de Sousa Mendes, naqueles anos de 1938 a 1940 e que interveio directamente, embora contrariado, na emissão dos vistos.

Compulsei ainda os arquivos da época, que ainda se encontram hoje no Consulado, tendo em conta que o essencial dos mesmos fora enviado para Lisboa, dado que a chancelaria foi encerrada logo a seguir aos acontecimentos.

Admirando a coragem do seu acto e o seu procedimento, sobretudo na altura em que o executou , considero Sousa Mendes um pouco como o meu herói, sendo por isso com uma certa paixão , religião e admiração que dele falo e, evidentemente também com um certo orgulho de poder Ter tido o previlégio de manusear documentos escritos por ele , de Ter ocupado as mesmas salas e os mesmos compartimentos onde se desenrolaram os acontecimentos e de Ter ouvido testemunhos de pessoas que viveram a tragédia naqueles tempos.

- "Pode indicar alguns dados da vida de Sousa Mendes e de acontecimentos históricos que tivessem porventura influência no seu percurso de diplomata ?

Aristides de Sousa Mendes, nasceu em 19/07/1885 em Cabanas de Viriato, concelho de Carregal do Sal, na Beira Alta. Com ele, nasceu também um irmão gémeo, de nome César.

É sabido que os irmãos gémeos têm entre si afinidades muito especiais, que os levam a uma vivência de sentimentos idênticos e os conduzem a uma aproximação e identificação de pontos de vista em relação aos mesmos fenómenos da vida corrente. Este caso não foi excepção.

Com efeito, César de Sousa Mendes e seu irmão gémeo Aristides, comungaram e estiveram envolvidos e empenhados em praticamente todos os momentos fastos das suas vidas e, também, do mesmo modo, compartilharam com sofrimento e angústia, os dramas e tragédias nas suas carreiras profissionais e familiares.

 

Ambos se licenciaram em Direito na Universidade de Coimbra e ambos abraçaram a carreira diplomática, tendo o irmão César , em 1932, sido nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros por Salazar, que também frequentou como sabemos aquela Universidade, onde aliás foi professor, e de quem eram afinal vizinhos, pois Salazar nascera no vizinho concelho Santa Comba Dão.

Nasceu Sousa Mendes em plena monarquia, regime cujas convicções adoptou e partilhou e que lhe trouxeram mais tarde alguns dissabores como veremos.

- " Em 1908 começou a sua carreira diplomática ?

- Logo em 5 de Outubro de 1910, há um primeiro acontecimento histórico: é implantada da República em Portugal.

- Em 1911 é enviado para Zanzibar,
- Em 1918 é nomeado para Curitiba, no Brasil.
- Em 1919 ou 1920 começam os seus desagravos. Sabemos que é punido, por quê ?

Com efeito. É punido, imagine-se, pelas suas convicções antidemocráticas e anti-republicanas, sendo afastado temporariamente da carreira. Em vez de assumir e aceitar a punição, o que fez Sousa Mendes ?

Nada mais, nada menos, do que mudar ostensivamente de nome, acrescentando os apelidos da família "do Amaral e Abranches", de conotação monárquica, ao seu nome. Passaria a chamar-se Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches. Isto, foi um desafio frontal à República, ou melhor, a alguns republicanos mas, finalmente, temos que considerar esse gesto como uma prova de coerência e afirmação da sua personalidade.

  - Em 1921 é readmitido e enviado para São Francisco da Califórnia, já com 10 filhos.
- Em 1924 encontra-se em Maranhão, outra vez no Brasil.
- E chegamos ao tempo das revoluções ...

Com efeito, em 28/05/1926, o general Gomes da Costa chefiou uma Revolta militar que terminou num regime ditatorial. Um segundo golpe de Estado em 09/07/1926 depôs Gomes da Costa e entregou o poder ao general Óscar Carmona.

-

- Em Março de 1927, Aristides de Sousa Mendes é nomeado Cônsul em Vigo, na Galiza.

- "Como é que então um homem que tinha caído em desgraça, foi nomeado para um posto de eleição como aquele em Vigo ?

Segundo o próprio Sousa Mendes, foi escolhido por motivo de confiança pelo regime militar, que via nele o funcionário próprio para vigiar e inutilizar os movimentos conspiratórios dos emigrados políticos contra a ditadura, sobretudo republicanos, pelos quais, como sabemos, não nutria as maiores simpatias.

- Salazar é nomeado Ministro das Finanças em Abril de 1928 e, como dissemos, nomeia em 1932 para Ministro dos Negócios Estrangeiros ,César de Sousa Mendes, o irmão gémeo de Aristides.

- Aristides é nomeado em 1929 para Antuérpia, na Bélgica, um lugar de muito prestígio e rentável, onde permaneceu até 1938 com sua esposa, os seus 14 filhos e as criadas, tendo ali conhecido, com certeza, os melhores e mais felizes tempos da sua carreira, pelo menos, em termos de estabilidade familiar.

 

Todos nós imaginamos o esforço, a imaginação e o dinheiro que não seria necessário para gerir toda esta prole, educar, sustentar e alimentar todas aquelas bocas no quotidiano.

Sabemos que todos os filhos se encontravam escolarizados em Antuérpia, cinco dos quais frequentavam a Universidade e, beneficiando todos, de uma educação requintada e esmerada, com aulas de música, de dança e de canto.

  Como apontamento particular, porque afinal, tudo na vida daquele homem foi particular, mandou construir em modelo único, um carro de dezassete lugares a que chamaram o "Expresso dos Montes Hermínios", alusão à sua vizinha serra da Estrêla, no qual se deslocavam, tanto nos pequenos passeios familiares, como nas frequentes deslocações que faziam a Cabanas de Viriato, nos períodos das férias, onde a família possuía uma casa apalaçada, herança de sua esposa Angelina, evidentemente também aquela, à dimensão da família,

com cerca de doze quartos, seis salas de banho, vários salões e bibliotecas, uma capela, um grande terreno, cujas traseiras , muradas com harmoniosos arcos, encimados com o brasão da família, dava acesso à igreja, ao lado da qual se encontra o cemitério, onde a família possui também um mausoléu.

O Cônsul defrontava-se evidentemente, em permanência, com problemas de carácter monetário. Escrevia imensos ofícios ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, para que lhe aumentasse o ordenado, invocando de cada vez a numerosa prole a educar e sustentar.

No entanto, ao mesmo tempo, tomava medidas e decisões completamente contraditórias com essa visível necessidade, como por exemplo, nessa mesma altura em que enfrentava enormes problemas monetários, o que fez Sousa Mendes ?

Mandou esculpir, na Bélgica, em granito, uma estátua do Cristo Rei, que mandou em seguida transportar por barco para Portugal, estátua que ainda hoje se encontra justaposta à sua casa, no cimo de uma pequena colina, em Cabanas de Viriato.

- Em Julho de 1938, Sousa Mendes é nomeado, contra sua vontade e contra a vontade dos seus filhos para Bordéus.

- "Como era afinal o homem e qual o seu carácter ?

Era dotado de muito boas qualidades pessoais. Possuía um forte sentido da honra e da dignidade. Era intensamente patriótico, alegre, bondoso, prestável, amável e generoso. Pai devotado. Homem culto, cantava, tocava e gostava de música Lia e escrevia poesia. Era zeloso e diligente no seu trabalho.

Era um homem com uma grande cultura religiosa e profundamente religioso. A sua vida era pautada pelo exemplo dos evangelhos, rezava o terço todos os dias, era de grande assiduidade nas igrejas.

Esta vertente, este aspecto religioso, aliado naturalmente ao seu carácter humanitário e de respeito pela pessoa humana, independentemente da sua raça, cor e religião, teve, na minha apreciação uma grande influência na sua decisão na concessão dos vistos, como hei-de exemplificar mais adiante, com extractos tirados de documentos que ele próprio escreveu.

- Não era, porém, um homem perfeito ?

Tinha muito defeitos, entre os quais , o ser muito emotivo e impulsivo. Não tinha por hábito dissimular os seus verdadeiros sentimentos, o que lhe trouxe muitos dissabores na sua carreira e em praticamente em todos os locais por onde passou.

- Mas para perceber bem a sua atitude, seria bom enquadrar a sua acção num contexto histórico.

- " Que tempos se viviam na Europa naquela época ?

Em Abril de 1940 a Alemanha invade a Dinamarca, a Holanda, o Luxemburgo e a Bélgica.

A França está dividida em duas facções:Havia uma facção que apoiava a resistência e a luta contra o nazismo, que era constituída pelo 1º Ministro Paul Reynaud, seu Ministro do Interior Georges Mendel, De Gaulle, os quais contavam pela Inglaterra, com o apoio de Churchil, e de Roosevelt, mais tarde, pelos Estados Unidos.

Pelo outro lado, havia o Marechal Pétain, que era a glória da França, pelo papel que desempenhou na 1ª guerra mundial e o general Weigand, que propunham o armistício, porque, sendo militares, conhecedores do meio bélico e das guerras, consideravam que a França tinha o seu exército completamente desintegrado e sem capacidade de resposta ao potencial de guerra e à agressividade alemã.

- A partir de 14 de Junho de 1940 tudo vai desmoronar-se a uma velocidade vertiginosa: - Paris é ocupada pelas tropas nazis.

- A 15 de Junho o governo instala-se em Bordéus. Com o governo desloca-se o mundo da diplomacia. Nada menos do que 60 Embaixadas de países estrangeiros e seus funcionários.

- Com a invasão, a França, e particularmente o Sudoeste, é invadido e ocupado por milhares e milhares de refugiados , constituídos por anti nazis, por judeus e todos os que, de um modo geral, temiam a guerra.

Os números apontam para cerca de 8 a 10 milhões que erravam por esta região

 

- 18 de Junho, Pétain prepara a rendição.
- Na noite de 19 para 20 , aviação alemã bombardeia Bordéus, matando e destruindo.
- 22 de Junho é assinado o armistício

- O caos é total. Não há ligações, não há comunicações, não há informação.
- Os milhares de refugiados invadem as ruas de Bordéus.

- Toda aquela gente errante, vinda do Norte e de Leste, encurralada no Sudoeste sabe, que com a rendição, só lhes resta uma porta de saída para a salvação:

- Essa porta de saída era a Espanha ou Portugal, mas... problema, grande, enorme problema: a Espanha não aceita refugiados, a Espanha não pode aceitar refugiados. A Espanha acabava de sair de uma horrível guerra civil que lhe custou meio milhão de vidas, encontrando-se por isso destroçada e arruinada.

- Além disso, tinha à sua frente um homem de ferro, o general Franco, que tinha simpatias por Hitler e também, por esse facto, não queria, nem podia absorver todos os milhares de refugiados que se apresentavam às suas fronteiras.

- " Qual era o papel desempenhado por Portugal nesta época ?

No meio de todo este tumulto, desta Europa trágica, Portugal era governado por António Salazar , que, tendo mais simpatias por Mussolini do que por Hitler, tentava manter uma posição neutral e assim, poupar o povo português a uma guerra que seria inevitável se houvesse da sua parte aderência a um campo.

A população portuguesa consciente e politizada, estava dividida entre os germanófilos, que apoiavam a Alemanha nazi e os que apoiavam a resistência e a luta contra o nazismo. Portugal, era assim, o único país que proporcionava uma saída para as Américas a todos aqueles refugiados.

Conhecedor do que se passava, Salazar não queria comprometer o país, pelo que, em previsão do avanço das tropas alemãs pela Europa dentro e dos milhões de refugiados que avançavam ao ritmo do avanço daquelas tropas, manda instruções para os Consulados, por intermédio da célebre Circular 14, proibindo-os de dar vistos, excepto a pessoas que fossem detentoras de um bilhete de passagem para as Américas e, mesmo assim, só com autorização prévia do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

É aqui então que entra em acção Aristides de Sousa Mendes ?

Conhecedor avisado da situação que se vivia naquele momento, ele sabia que, se respeitasse aquela ordem, que era clara e inequívoca, todo aquele mundo que vagueava errante pelas ruas, sem tecto, sem meios, estaria, com o armistício, condenado à prisão, aos campos de concentração e à morte.

O Cônsul enviou dezenas de telegramas ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para conceder vistos que haviam sido solicitados. As respostas não vinham. Os pedidos acumulavam-se . A pressão aumentava.O Cônsul, Aristides de Sousa Mendes , sentia que estava cada vez mais nas suas mãos salvar e pôr ao abrigo tanta gente que lhe pedia socorro.

Que fazer ? Ele exigia a si próprio uma solução ! Tinha que decidir ! Longamente equacionou as consequências:

- De um lado, as suas funções, a sua carreira, a sua numerosa família, o seu dever de obediência e do outro, do outro ... arrancar às garras dos nazis aqueles milhares de homens, mulheres e crianças que lhe imploravam auxílio, devendo porém para isso, desobedecer !

A sua decisão, depois de maduramente reflectida, foi porém irrevogável, era o sim, um sim, sublime, claro e inequívoco, que lhe valeu as consequências que conhecemos para a sua carreira, para a sua vida e para o futuro da sua numerosa família.

- " Que fez então Aristides de Sousa Mendes ?

Chamou a mulher e os filhos e, na presença dos refugiados, disse a todos, num tom grave:

"Como informei toda a gente, o meu governo recusou terminantemente todos os pedidos para concessão de vistos a todos e quaisquer refugiados. Tudo está agora nas minhas mãos para salvar os muitos milhares de pessoas que vieram de todos os lados da Europa na esperança de encontrar refúgio em Portugal. Todos eles são seres humanos e o seu estatuto na vida, religião ou cor, são totalmente irrelevantes para mim. Além disso, as cláusulas da Constituição do meu País relativas a casos como o presente, dizem que, em nenhuma circunstância, religião ou as convicções políticas de um estrangeiro, o impedirão de procurar refúgio no território português. Eu sou cristão e, como tal, acredito que não devo deixar esses refugiados sucumbir. Uma grande parte deles são judeus" ...

... e mais adiante continua ... "Sei que a minha mulher concorda com a minha opinião e estou certo de que os meus filhos compreenderão e não me acusarão, se por dar vistos a todos os refugiados, eu amanhã for destituído do meu cargo por Ter agido contra ordens que, em meu entender, são vis e injustas. E assim, declaro que darei, sem encargos, vistos a quem quer que os peça...

... O meu desejo, é mais ,estar com Deus contra o homem,
do que com o homem contra Deus."

- Aos filhos presentes, disse ainda : "Não sei o que é que o futuro reserva para a vossa mãe . Materialmente, a vida não será tão boa para nós, como o tem sido até agora. Contudo, sejamos corajosos e tenhamos em mente que, ao dar a esses refugiados a possibilidade de viverem, teremos uma possibilidade mais de entrar no reino dos céus, porque, ao fazê-lo, não faremos mais do que cumprir os mandamentos de Deus".

- "Como se processou a emissão dos vistos ?

Aristides de Sousa Mendes passou então a dar vistos a quem os pedia.

Houve horas dramáticas e trágicas vividas pela multidão que se apinhava e que não arredava pé, tanto no Consulado, como nas imediações, até ao momento do suspiro de alívio, quando viam entre as suas mãos o tão desejado visto, que representava para eles a libertação ou tão simplesmente o direito a viver. Como havia urgência, os vistos eram dados no Consulado em Bordéus, tendo o Cônsul dado também instruções para que fossem dados em Bayonne e Toulouse. Ele próprio, depois de Bordéus mais aliviado, se deslocou a Bayonne para continuar a dar vistos, uma vez que eram Postos que dependiam de Bordéus e que havia ali alguma resistência e medo em contrariar as ordens recebidas de Lisboa.

Dado que interessava salvar o máximo de pessoas e havia multidões que afluíam aos Consulados, os vistos não se limitavam a ser dados nas chancelarias mas eram também emitidos na fronteira , dentro e fora das horas de serviço. Todo este trabalho desmesurado, deixou o Cônsul completamente extenuado e muito deprimido.

Com aquele gesto, porém, Sousa Mendes salvou milhares de vias humanas, muitos milhares de vidas humanas, mas... mas condenou, aniquilou, destroçou a sua carreira e a sua vida familiar, a vida familiar de um homem casado com 14 filhos , digo bem, 14 filhos a cargo.

- " Que motivos, que razões puderam levar Sousa Mendes a tomar uma decisão de desobediência a uma ordem emanada do Governo ?

De acordo com a leitura dos livros que lhe foram dedicados, dos documentos que pude consultar, estou certo que, para isso pesou um pouco de tudo o que passo a indicar :

- O peso da história naquele momento trágico na Europa.

- Por conhecer bem o que era e significava o nazismo e as suas inevitáveis consequências,

- Por Ter ficado traumatizado pelo clima e ambiente de guerra vivido na Europa, na França e mesmo debaixo das suas janelas, em Bordéus, que foi invadida, ocupada e bombardeada.

- Por ter ficado chocado e angustiado com a multidão que invadiu Bordéus e particularmente o Consulado .

- Por Ter vivido a atmosfera de pânico e de incerteza que se apossou de toda a gente, refugiados ou não, tendo deles compaixão.

- Por se Ter identificação aos refugiados e à sua angústia.

- Por ser ele mesmo pai de 14 filhos, conhecendo por isso melhor do que outros o incomensurável drama e carácter trágico e irremediável da situação de refugiado .

- Pela sua religiosidade, que se manifestava no seu dia a dia e nos menores gestos do seu quotidiano.- Seria ele possuído de um complexo messiânico, agindo como instrumento da vontade de Deus para salvar aquelas almas, esse Deus que o acompanhava e guiava todos os seus gestos ?

- Quereria com aquela atitude redimir-se de erros e dos seus defeitos do passado, que eram muitos segundo afirmara ?

- Quereria ele, conforme declarou, redimir Portugal, pela perseguição que foi feita aos judeus no nosso país e ter em relação a eles um gesto de clemência e de perdão ?

- Seria que, a todo aquele momento trágico, vivido com uma tensão brutal, não tivesse também influência o facto de Sousa Mendes se ligar a uma amante , mulher esbelta e culta, que conheceu logo ao chegar a Bordéus, mais nova do que ele 23 anos, de quem muito gostava e apreciava e que viria aliás, mais tarde, a ser sua mulher e que, para cúmulo, naquele momento trágico, naquele mês de Junho de 1940, se encontrava grávida de 5 meses, momento em que o Mundo, a Europa , a França e Bordéus, viviam na mais dramática expectativa e na mais inacreditável angústia e medo ?

- Teria esse facto contribuído para o perturbar mentalmente, para o angustiar, para lhe tirar o discernimento, ele homem casado, responsável e com 14 filhos ?
- Seria que pretendia corrigir com aquela atitude todas as contradições da sua vida ?
- Seria só e apenas por espírito humanitário e altruísta ?

- Por saber de antemão, que os seus colegas do Ministério, distantes do drama e da tragédia, ao abrigo dos gabinetes de Lisboa, não veriam naquele gesto mais do que uma desobediência premeditada, da parte de um Cônsul que já tinha no seu palmarés, oito processos disciplinares, a maior parte por inconformismo.

Penso firmemente e com convicção, que efectivamente, todos estes factores, com maior ou menor peso, se conjugaram para que Aristides de Sousa Mendes, e ele só, fosse levado a praticar aquele sublime acto de desobediência que tantas vidas salvou de uma morte certa e dos campos de concentração nazis.

- " Depois de dados os vistos, que destino teve o Cônsul ?

Aristides de Sousa Mendes, recebia nesses dias muitos telegramas de Salazar, não como resposta aos muitos pedidos de visto que fazia, mas sim repreensões e ordens para que regressasse imediatamente a Lisboa.

Foi obrigado, regressando efectivamente a Lisboa, em Julho de 1940. Teve um processo disciplinar distorcido, defendeu-se com os únicos argumentos que possuia, que deveriam valer ouro, que era Ter agido por espírito humanitário e apenas com o intuito de salvar vidas humanas, que estariam de outro modo votadas aos campos de concentração e à morte, mas...mas Salazar já tinha a sentença pronunciada há muito tempo.

Aristides de Sousa Mendes foi condenado. Recorreu, sem êxito. No fim da guerra, com a euforia da vitória dos aliados, voltou a tentar a sua reabilitação junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros e de Salazar, mas sem êxito.

Argumentou mesmo que, Salazar e a sua administração, aceitaram da comunidade internacional louvores e reconhecidos agradecimentos pela maneira generosa e cordial como foram acolhidos e recebidos os refugiados no nosso País. Mas, quem na realidade, permitiu que esses mesmos refugiados pudessem entrar em Portugal, senão a desobediência do requerente Aristides de Sousa Mendes ?

Na realidade, Salazar esqueceu tudo no fim da guerra :
- Esqueceu a circular 14, proibindo os vistos.
- Esqueceu todos aqueles que as autoridades portuguesas queriam deixar deportar às maõs dos nazis.
- Esqueceu as vénias que fazia aos alemães, que era imperioso não enervar.
- Esqueceu o processo de desobediência a ordens inumanas.
- Esqueceu a degradação...

Exausto e desiludido, Aristides de Sousa Mendes, pediu a interferência do Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa, o qual, conhecendo bem Salazar, logo lhe disse que a melhor solução, seria rezar, orar muito, a nossa senhora de Fátima.

Seu irmão gémeo, César, que sofria com a situação do irmão, do mesmo modo, sensível à desgraça tanto física , como moral, em que caíra Aristides, tudo tentou junto de Salazar, para salvaguardar os interesses e a carreira daquele, mas... também sem êxito.

Nunca recebeu a mínima resposta. Para sobreviver, Aristides contava com uma pequena pensão, com a ajuda de familiares e de amigos. Sofreu um ataque cerebral, ficando muito diminuído.

Uma antiga criada , a Fernanda, que acompanhou a família de Sousa Mendes durante a longa estadia na Bélgica , vivendo em Lisboa, ía procurar à cantina da comunidade judaica , alimentação para Aristides e sua esposa Angelina. Sousa Mendes, do mesmo modo que já antes hipotecara a sua carreira e o conforto da sua família, hipotecou agora os seus bens e a sua casa.

Com a alma a sangrar e o coração oprimido, aconselhou os seus filhos a abandonar o lar e a procurarem meio de vida, porque era visível a sua impossibilidade de os educar e sustentar. Desiludidos e com a morte na alma, espalharam-se pelos vários continentes, exercendo as mais diversas profissões.

Aristides de Sousa Mendes, morreu 13 anos depois, a 3 de Abril de 1954. Morreu pobre, morreu desiludido e morreu esquecido de todos.

Desta vez, porém, Salazar não se esqueceu dele.
Com efeito, no dia 5 de Abril de 1954, dois dias depois da morte de Aristides de Sousa Mendes, César, o irmão gémeo, que tantas cartas escreveu a Salazar a pedir auxílio e justiça para o seu desventurado irmão, recebeu enfim uma carta daquele, com uma lacónica palavra "
Condolências"

- Aristides de Sousa Mendes foi reabilitado ?

- Como se passou esse processo ?

A família, após a sua morte, mesmo dispersa, na realidade munca baixou os braços e sempre lutou para obter a sua reabilitação. Estabeleceram toda espécie de contactos com beneficiários de vistos, com as autoridades judaicas e hoje, Aristides de Sousa Mendes, entre outras homenagens conta com :
- Oito ruas com o seu nome,
- Um busto em Bordéus,
- Uma rua também em Bordéus, que já tem o seu nome e que será em breve inaugurada,
- Uma placa comemorativa no edifício do antigo Consulado em Bordéus,
- Um longo documentário da conhecida jornalista Diana Andringa na RTP, com o título :
"O Cônsul proscrito",
- Edições de selos com a sua efígie,
- Vinte árvores no Jardim dos Justos em Jerusalém,
- Condecoração da Ordem da Liberdade, atribuída pelo então Presidente da República, Mário Soares, o qual também lhe prestou uma homenagem em Bordéus em 1994,
- Homenagem pública em 1995, em Cabanas de Viriato,
- Homenagem no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, no passado dia 17 de Novembro.

- Quer terminar talvez com alguma frase ou pensamento que o tivesse impressionado nos documentos que leu a respeito de Sousa Mendes ?

Escolhi parte da carta de agradecimento que ele próprio escreveu ao seu advogado, Dr. Palma Carlos, quando se apercebeu de que mais um recurso seria inútil, pois estava definidamente assente que o Cônsul tinha tido uma atitude de desobediência.
Diz assim:

"Realmente desobedeci, mas a minha desobediência não me desonra. Não cumpri instruções que significavam , a meu ver, perseguição a verdadeiros náufragos que procuravam a todo o custo salvar-se da sanha hitleriana. Acima dessas instruções, estava para mim a lei de Deus e foi essa que eu procurei cumprir, sem hesitações, nem cobardias de poltrão.O verdadeiro valor da religião cristã, está no amor do próximo, e eu, sendo cristão, não podia fugir do seu império".

Mais adiante, termina dizendo:

"Deus aceitará o meu sacrifício em desconto dos meus pecados e imperfeições, que são muitos".Ou ainda esta outra frase escrita por seu irmão César, em resposta a um ataque de que alvo:

-

"Prezo-me de Ter recebido de meus pais um nome limpo e honrado, que me cumpre manter e transmitir aos meus filhos íntegro como o herdei".

Foi esta, afinal, a fortuna deixada aos seus herdeiros, por Aristides de Sousa Mendes.

Um nome limpo e honrado, que nos cabe agora a nós portugueses e ao mundo, evocar , respeitar e perpetuar, como tributo ao seu então incompreendido sacrifício.

João Dinis Lourenço, Vice Cônsul - Bordéus

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