30.000, dos quais 10.000 judeus !..

É o numero dos que devem a salvação a Sousa Mendes.

 


(Reader Digest Décembre 1988)
 

"A maior acção

de salvamento por um

ùnico indivíduo durante

o Holocausto."

escreveu Yehuda Bauer.

30 000

Durante os acontecimentos deste mês de junho, há um episódio que merecia  ser contado. Se os biografos o tinham considerado como um pormenor de mais, juntando-se a uma longa história, os desenhadores, mais atentos ao pitoresco, não o esqueceram.

Foi com este esquema que o"Reader’s Digest", apresentou o seu artigo e Jocelyn Gilles não o esqueceu na sua B.D. Ele apresenta-nos este último episódio memoravel, esta caravana de refugiados, uns com os seus carros, outros a pé, autros de camionetas, todos caregados de sacos e de malas de mão... e em frente deles todos, Sousa Mendes conduzindo o seu carro. Os seus filhos disseram-nos:

"O nosso pai conhecia esta pequena estrada, um bocadinho à parte da estrada principal. Na altura das feiras, ele apanhava-a frequentemente, para evitar muito tempo a espera, na passagem fronteiriça. Nessa altura este poste fronteiriço isolado, não tinha  telefone. E podia-se esperar que as ordens de Madrid não tinham chegados ate lá".

Com efeito o posto de Hendaye, já sabia que os vistos de Sousa Mendes não tinham valor nehum, e que os portadores deviam ser recalcados. Agora as tropas alemães ocupavam toda a região. O rigor imposava-se.

Foi là a ultima tentativa para passar a fronteira, com esperança de encontrar novamente a liberdade, longe da Europa. Mas esta caravana é, tambem para nós, um sinal da tenacidade de Sousa Mendes, conforme a sua decisão de os salvar a TODOS ! e isso qualquer que seja a religião, nacionalidade, opção políticas, cor de pele...os salvar TODOS.

30.000 ? . Fica a pergunta ! Quantos homens, mulheres, meninos... conseguiram escapar  do horror dos campos de concentraçao e da morte ? Foi registado o número de "30.000, e no meio deles 10.000 judeus". Este número foi evocado na generalidade da emprensa vinda da América. Encontrá-mo-lo, pela primeira vez, no jornal "O Emigrante" do dia 29 de Maio 1987. Fala de 30 000 pessos, o terço deles eram judeus".

Mas "O Emigrante" deu este número por que foi este, que foi difundido por toda a empresa americana, e israelita. 30 .000 pessoas, no meio dos quais 10 000 judéus. Assim o "Reader’s Digest" (Déc. 1988, pela edição francesa). É certo que quando evocamos as circunstancias nas quais estes vistos foram dados, este número não nos surpreende.

Irène Pimentel, por sua parte refere-se a Christa Heinrigh, num artigo no qual ele se refera num  estudo da COMASSIS ( Comissão de Assistência aos Judeus refugiados), que cerca de 18 mil refugiados, muitos com visto dado por A.Sousa Mendes, amontoarem-se junto à fronteira portuguesa, fechada pela PVDE, entre 24 e 26 de junho de 1940, após a invasão da França pelos alemães (Historia Nov.98 page16- Esaguy Two Adress, 1950 - arquivos da PVDE).

Por seu turno, a organização judaica americana "Joint" calculou que, entre Junho de 1940 passaram por Portugal cerca de 40 mil pessoas (R.Afonso - 1995). O mesme Rui Afonso refere-se a Vidalenc, "L'Exode" (Paris - Presse Universitaires de France, 1957), nas páginas 343-344, do seu livro, para dizer que Toulouse estava também inundada por dezenas de milhares de refugiados e evacuados... essas pessoas queriam um visto de trânsito português, Emile Gissot o Vice-Consul não tinha direito para conceder quaiqueres vistos, mas quando as comunicações foram cortadadas entre Toulouse e Bordéus, Aristides Sousa Mendes, o seu superior hierárquico, autorizou-lhe a conceder vistos ( Injustiça .p. 108 ). ... o que ele fez e continuou a fazer até Agosto de 1942 data em que ele foi demitido por Tovar.

Esther Mucznick fala de 50.000 réfugiados :"Com a entrada dos Estados Unidos na guerra a situação altera-se, e a comunidade vai modificar também a sua acção no apoio aos refugiados. Vivia-se de facto, em Portugal um momento crucial. Lisboa estava inundada de refugiados - segundo os dados do Alto-Comissariado para os refugiados da Sociedade das Nações, só entre a derrota da França, em junho de 1940, e meados de 1941 entraram em Portugal mais de 50 mil refugiados, muitos dos quais com vistos passados pelo cônsul de Portugal em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes , em clara desobediência às ordens de Salazar ("Historia"- Junho 1999 page 37).   Mas esta evaluação está confirmada com o Livro de contabilidade do Secretário du consulado, José Seabra descoberta nos arquivos do Consulado, só em 1998.

O Livro de Contabilidade de José Seabra.

Este livro da conta dos selos vendidos pelo Secretário du Consul durante o primeiro semestre de 1940, é muito interessante por que, segundo o que lhe foi dito pelas testemunhas do momento, José Seabra tinha finalement aceite obedecer ao Senhor Cônsul Geral, o seu superior, mas so por condição de respeitar escrupulosamente as regras habituais da sua profissão. Era então  preciso de 15 a 20 minutos para  prencher um passaporte, e ao fim deste caderno de contabilidade de 60 páginas, Seabra, o secretário, concluia na última página : 1.674 vistos e passaportas passados entre o dia 1 de Janeiro e o dia 22 de Junho 1940.

--------------Encontramos ca alguns nomes conhecidos... no N°2.I34, o nome do Sr.Spett e a sua Sra, nascida Dreyfus, uns dos raros passaportes reproduzido num livro americano, ("The courage To Care" par Rittner Myers, page 131). O n° 636, é o número da página 21 com o passaporte do cônsulado de Haïti ( com uma valididade de 30 dias ), No livro de Seabra, ele tem o n°2.134. José Seabra, em bom funcionário, respeitoso das leis e formalidades jurídicas, tinha exigido este visto para um país de outro lado do Atlántico, com uma valididade de 30 dias. De maneira que Portugal estava só um lugar de passagem.  

Encontramos tambêm neste livro alguns tetemunhas: Joseph Matuzewitz com o n° 1.178, et 1.179 para a sua esposa Lucie, os Montezinhos com o n°1.504 à 1.508, Robert Montgomery com o n°1.436, Charles Oulmont com o n° 2.000 e tambem toda familia Rotschild,com os n°1745 à 1745, alegados por Rui Afonso.

Temos de reparar que por baixo duma das ultimas páginas do caderno, (page 58) , J.Seabra precisa : "Os vistos designados com os números 2.763 à 2.850 foram passados pelo Sr.Cônsul fora das horas de serviços ". Vistos pelos quais os beneficiários queriam os selos reglamentares... Mas esta maneira de fazer   tornava  impossiveis os cálculos de Seabra, as páginas seguintes têm todas uma seria de números cancelados, sem quaisqueres nomes ...É certo que para além desta página 58, não temos  qualquer nome em frente deles..!...? Seabra ele mesmo ...está ultrapassado pelos acontecimentos ... e no dia 22 de junho, acaba o seu cadero com estas palavras :

---.

" 1.674 vistos no meio dos quais 80 nomes não foram inscritos".

-... Contabilidade obriga !

Finalmente, em Novembro de 1986, quando se falou na condecoração de Aristides de Sousa Mendes com a Ordem da Liberdade, Lisboa ordena que se proceda a uma investigação. O Cônsul de Bordéus é encarregado de fazer uma visita a José Seabra, idoso e doente, para lhe pedir que dê conta dos acontecimentos de 1940, de que foi testemunha. O Cônsul Frota especifica: - Ele não soube indicar um número preciso, nem mesmo aproximado; só sabe com toda a certeza que eram muitas centenas " (ASM "Les Documents", page 120 - 3/c).

Dezasseis centenas já é um belo número para um homem que respeitava todos os detalhes das directivas administrativas! Mas, como vimos anteriormente, em Bordéus havia 4 ou 5 pessoas a trabalhar na preparação dos documentos para depois o Cônsul assinar.

Por outro lado, como Cônsul-Geral, Aristides estava hierarquicamente acima do Vice-Cônsul de Toulouse, Émile Gissot. Assim que os contactos entre Toulouse e Bordéus deixaram de ser possíveis, Aristides ordenou a Gissot que também ele passasse vistos a todos quantos lhos pedissem (injustiça, pág. 108).

Depois, foi por diversas vezes a Bayonne e a Hendaye para dar as mesmas indicações aos seus subordinados Faria Machado e Vieira Braga.

Mas deixemos a Sebastião o encargo de contar a última chegada do seu pai a Baiona e Hendaia. (Documento que se encontra na 2 da parte de "Flight trough Hell - p. 59 - 61, e na traducção francesa ASM Documents.p.52)-   "


. . . I
mage extraite da B.D. "Bordeaux dans la tourmente"
- -" Parámos diante do gabinete do Vice-Cônsul, tendo seguido o Dr. Sousa Mendes até ao Consulado. O Vice-Cônsul veio receber-nos e o Dr. Sousa Mendes, entrando num dos gabinetes, perguntou: - Porque não ajuda estes pobres refugiados? - Sabe tão bem como eu que o nosso Governo recusou categoricamente conceder vistos a quem quer que seja - respondeu o Vice-Cônsul.

- "O senhor diz que está aqui para executar as instruções que recebe dos seus superiores hierárquicos, não é verdade? Pois bem, eu ainda sou o Cônsul-Geral de Bordéus e, como tal, sou seu superior hierárquico. Assim sendo, ordeno-lhe que conceda tantos vistos quantos forem necessários. Dito isto, enviou mensageiros ao exterior do Consulado e estes instaram os refugiados a apresentarem-se na chancelaria do Consulado para receberem os seus vistos. O emissário, começando a perceber o que se passava, não disse mais nada e limitou-se a observar. O Vice-Cônsul enfureceu-se ao ver o Dr. Mendes sentar-se à sua própria secretária e preparar os carimbos e os formulários para os vistos. De referir que os vistos concedidos pelo Dr. Sousa Mendes tinham um estilo muito próprio; eram mais ou menos assim:

"O Governo Português pede ao Governo Espanhol que autorize o portador do presente visto a atravessar livremente o território espanhol. Esta pessoa é uma refugiada do teatro de operações europeu em trânsito para Portugal."

Estes vistos eram pedaços de papel sem nenhuma outra identificação à excepção do carimbo oficial do Consulado. E foi este o tipo de vistos que o Dr. Mendes concedeu; o tempo não era propício para formalidades administrativas. A vida e a segurança de cada refugiado eram a única coisa que interessava ao Cônsul Sousa Mendes. No dia seguinte, quando os refugiados que chegaram a Bayonne retomaram o seu caminho em direcção a terra segura, o Dr. Mendes informou novamente o emissário que estaria prestes a continuar a viagem para Lisboa.

Chegámos já de noite a Hendaye, na fronteira franco-espanhola. Mais uma vez, deparámo-nos com a maior multidão de refugiados que tínhamos visto até então. Todos os refugiados que tinham sido encorajados pelo Dr. Mendes, bem como milhares de outros, tinham vindo a Hendaye cheios de esperança e muitos viram essas esperanças destruídas... Mas a partir desse dia, sabiam que havia alguém a zelar pela sua segurança."   

Não sei, não faço a mais pequena ideia; mas tenho a sensação de que ele vai fazer-nos seguir por Espanha. É um homem determinado e capaz de fazer tudo aquilo que se propõe fazer - respondi. - Sim - acrescentou Jules, - ele já nos ajudou anteriormente a salvarmo-nos e sem dúvida que está a fazê-lo novamente.

Viajámos durante muito tempo, não sei ao certo quanto. De certeza que esta foi a maior coluna humana em viagem alguma vez vista. Deus abençoou o Dr. Mendes e todos nós, porque acabámos mesmo por chegar sãos e salvos a Espanha. Como foi possível?

Foi um autêntico milagre! O Dr. Mendes tornou a conseguir os seus intentos. Provavelmente inspirado por Deus, pensara que talvez as ordens do Governo espanhol não tivessem sido transmitidas a todos os postos fronteiriços de Espanha. As autoridades espanholas partiram do princípio que os refugiados iriam atravessar a fronteira por Hendaye. E tinham razão.

. . ._ Era essa a ideia. Todavia, as autoridades tinham-se esquecido de que havia outros pontos na fronteira pelos quais os refugiados podiam facilmente passar.

E foi exactamente isso que aconteceu. O Dr. Mendes seguia à frente de todos: apresentou as suas credenciais aos guardas e explicou-lhes que tinha autorizado que todos os refugiados fossem para Portugal e que não havia qualquer problema em deixá-los passar. E assim foi.

Passados dois dias, chegámos a Elvas, em Portugal. Os refugiados tinham seguido caminhos diferentes; já não formávamos uma coluna humana, como uns dias antes. No global, Portugal tinha melhor aspecto do que os países que tínhamos acabado de atravessar.

Já era noite cerrada quando, após termos apresentado os nossos passaportes na fronteira, entrámos na cidade de Elvas propriamente dita. Tudo nos parecia estranho. Depois de termos visto tanta gente dominada pelo medo e pelo pânico, estávamos agora perante pessoas despreocupadas e alegres. Vimos casais passeando tranquilamente pela rua e homens conversando nas esquinas; outros tocavam viola e cantavam melodias melancólicas tipicamente portuguesas. As luzes das ruas estavam acesas e ninguém parecia recear nada, nem sequer tentavam esconder as luzes dentro das casas, ninguém temia uma incursão aérea nocturna. O tempo estava ameno e o chão reflectia a luz da Lua cheia (Doc.ASM p.53)".

Eis o relato de Sebastião, o seu filho, ainda jovem, que nesse momento estava em Portugal, a estudar e que 3 anos mais tarde partiria, com o seu irmão Carlos, alistar-se na armada da Libertação.

Em Junho de 1944, ele e o seu irmão, farão parte dos que foram deixados em Normandia. Foi nos seus uniformes de soldados americanos, que depois da Victoria, eles vieram visitar os pais. Não tardaram a embarcar para a América, país onde tinham nascido, mas antes, Sebastião teve o cuidado de in terrogar os que tinham vivido esses dolorosos e heróicos momentos. Foi ele quem escreveu a maravilhosa história dos seus familiares, no seu pequeno livro " Fligt trough Hell " : "ELES FUGIAM DO INFERNO"

Em 1948, quando sua mãe, Angelina, faleceu Sebastião, da sua longínqua América, enviou a seu pai a narrativa que tinha feito dessas trágicas horas. " Tudo quanto escreveste é correcto", respondeu Aristides, logo da leitura do manuscrito.

30.000.. parece enorme, mas quando analisamos as circunstâncias, nada há de surpreendente, temos uma ideia da grandeza da tarefa cumprida. fr.Bernard Rivière

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(°) - E evidente que estando os alemães já em Hendaye, era impossivel de ir a Béhobie pela estrada normal, ao longo da Bidassoa.

Tudo leva a pensar que vindo atrás, em direcção de... ele volta a Behobie por uma das pequenas estradas então existentes e cujo traçado foi retomado 30 anos mais tarde para dar lugar à Auto-estrada


Entrada da Ponte de Behobie, em direção de Espanha

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